Não correspondo ao padrão, bem o sei. Devo, aos olhos do mundo em permanente agitação irreflectida, sem rumo ou destino, assemelhar-me a uma proscrita, talvez. Não está longe da verdade; desde cedo que me habituei a estar sozinha, a conviver comigo na minha solidão, na minha imaginação. Nada de intencional, de premeditado; proporcionou-se assim, simplesmente. Não tendo uma família na tradicional significação do termo - que é como quem diz, um grupo de parentes unidos, sempre presentes ainda que distantes, que se juntam nas festas, convivem, preocupam-se -, tive de aprender a lidar com isto em criança.
Sempre fui introvertida por natureza; e esta propensão do meu espírito acabou por, ao longo dos anos, me afastar do mundo de brincadeira e camaradagem dos meus colega de escola. Não por não simpatizar com eles, bem pelo contrário. Simplesmente era bem mais fácil para mim perder-me nos meus devaneios, fitando o recreio com um olhar exterior vazio que na sua essência contemplava uma vastidão de mundos fantásticos que mal conseguia conceber. Não conseguia dar o primeiro passo para me aproximar de alguém, meter conversa, brincar, rir. E, entre crianças, quem procura puxar para si alguém que está fora porque quer - ou porque não quer -, ainda que isso não corresponda bem à realidade? Não se pode exigir isso de crianças em idade escolar, num ciclo tão singular do desenvolvimento. E, quando se entra na adolescência, a situação evolui. Para pior. Se em criança não me identificava com as brincadeiras de bola e outras mais ou menos agressivas dos rapazes, nem com o mundo elementar das brincadeiras de bonecas das raparigas - que, diga-se de passagem, consistem em formar famílias, criar pseudo-relações à imagem dos papás e das mamãs, ter filhotes, uma casinha engraçada; a coisa, diga-se de passagem, não vai muito mais além - também agora, que sou adolescente, não me identifico com os temas de conversa que permitem a integração num grupo e que me abririam as portas ao mundo da companhia, do convívio - em suma, do mundo não solitário. Tudo me parece tão sem importância, tão... fútil? Não sou melhor nem pior do que ninguém; serei, quanto muito diferente. Mas desde quando ser diferente tem forçosamente de ser mau?"
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