testing a new face for the old blog. tried other platforms, but no other seemed good enough.

February 02, 2005

[revenge is a bitterseet taste... like the own's blood...]

[revenge is a bittersweet taste... like the own's blood...]



Em circunstâncias normais ficaria contente. Verdadeiramente. Feliz, até. Teria pena de não poder assistir a tudo de um lugar privilegiado, de não poder ser o primeiro a atirar a primeira pedra quando o julgamento tivesse início, de não poder ver a tua expressão amarga pela derrota que te auto-infligiste. Seria o início do teu fim - e o fim do meu início. O apogeu da perfeição.

No entanto, não mais sou assim. Ou tento pelo menos não ser, que a lugar algum me levará. Que alegria me poderia proporcionar a tua queda quando eu próprio ainda não bati no fundo..? Que gozo me trariam as tuas lágrimas quando a fonte das minhas secou há tanto tempo que já esqueci a sensação? Nem sabor a vingança, frio ou quente, teria, que em nada interferi, nem teria interferido ainda que a oportunidade para tal me tivesse sido proporcionada por um qualquer deus malévolo. Todos os sentimentos subsequentes seriam insignificantes e ridiculamente mesquinhos. Não resta nada para sentir desse lado do espelho . . . .

Talvez nos encontremos no fundo do poço. Talvez o nosso sangue derramado se misture lá em baixo, naquele lugar sem trevas ou luz. Talvez, na perfeita ironia do destino, possamos mesmo morrer juntos, nem unidos pelo amor, nem separados pelo ódio . . . . indiferentemente, talvez . . . . ou talvez ascendas aos céus, num repente, impulsionada por uma magia de sonho que não mais conhecerei. Não o sei, que o futuro, ainda que nas minhas mãos esteja . . . . não me pertence . . . . não me pertence . . . .

(imagem de Dorian Cleavenger)

February 01, 2005

[Moment's Song 03: "Sing for Absolution", Muse]

[Moment's Song 03: "Sing For Absolution", Muse]


Há muito que não o fazia. Há muito que não me deixava envolver pela luz do entardecer e caminhava livremente pelas ruas da cidade, agitadas e inconstantes como é a sua natureza, envolto no meu próprio silêncio.

Caminho devagar, sem rumo definido, deixo-me invadir por nada e em nada me torno. Ainda estou em guerra, mas até a batalha acalma, dá-me uma trégua momentânea, deixa-me apaziguar o espírito, dissolver a mente na míriade de cores quentes do crepúsculo em ascensão, na brisa fria que embala a tarde, suave, sem pressa.

Sinto-me livre por momentos. Livre como antes, como em tempos idos que não voltam mais, em que a liberdade dos céus indigo era o meu limite... antes desta guerra começar, e enegrecer o céu com o fumo das forjas, antes de o som de metal a embater em metal ecoar pelos ares, abafado pelos gritos de guerra de ambos os exércitos, absorvidos pelo mesmo furioso ímpeto guerreiro, ainda que a combaterem por causas distintas . . . .

Mas nada disso importa agora, neste momento, só neste momento, em que me sinto livre . . . . absolutamente livre . . . .

lips are turning blue
a kiss that can't renew
I only dream of you
my beautiful

tiptoe to your room
a starlight in the gloom
I only dream of you
and you never knew

sing for absolution
I will be singing
falling from your grace

there's nowhere left to hide
in no one to confide
the truth runs deep inside
and will never die

lips are turning blue
a kiss that can't renew
I only dream of you
my beautiful

sing for absolution
I will be singing
falling from your grace

sing for absolution
I will be singing
falling from your grace

our wrongs remain unrectified
and our souls won't be exhumed

("Dark Alley", imagem de Debra Hurd)

January 29, 2005

[cold and frosty night, there's nothing more to say... just take me away . . .]

[cold and frosty night, there's nothing more to say... just take me away . . .]


Sometimes things end abruptly, unexpectedly. Then the only thing we wished was to be given the opportunity to return and set the wrong things right. "And sometimes . . . . just sometimes . . . . a crow show us the way . . . . because sometimes, love is stronger than anything."

Here I am, all alone in this bleak night, sitting in my own grave. It's all so quiet... as if nature itself is drown in sorrow. Even the wind is gone, as the stars and the moon, leaving me in darkness . . . . with my ghosts.
I don't know if I have survived indeed. And I don't think it matters anymore. I am here, that's all. Alone, as I should, for our love is buried down here, six feet below this cold gravestone.

For countless ages I have crawled in darkness, paying heed to every illusion that might somehow heal my battered soul. For many time have I tried by all means to find hope where it could never grow, for the sun never shone upon those blasted wastelands. Many days have passed, and all that's left are illusions. At least I had enough time to regret my sins . . . .

Now that I realized there's nothing left, I returned. I am sitting in the place when I lost everything and everything looks lost. Death came, and everything else vanished with the wind. Even my tears.

What is the meaning of all this . . . ? The crow will never come . . . .

(imagem de Dorian Cleavenger)

January 25, 2005

[expectations]

[expectations...]

The Oracle faced Ghost witout raising from her chair. "I don't remember your face, but I remember your heart. Once you asked me if she [Trinity] would ever love you. I said only as a friend, as a brother..." Ghost smiled. "... Yes, I remember that smile. But I don't remember what you said."

"I thanked you", he answered simply.

"Why?", she asked.

"Because I felt freed."

"Of what?", she asked back.

"Expectation."

The Oracle smiled. She kept staring at Ghost, his eyes still shining in the simple memory of his dreamed beloved, though she would never be with him. "That is a hard path to walk", she said, smilling.

"Nietchze said it best", replied Ghost, with a sad smile in his face. "One must want nothing to be different: not forward, not backwards, not in all eternity. Not only bear what is necessary, but to love it..." (...)

(from Enter The Matrix, Warner Brothers, Shinny Entertainment)

That's what I meant. That's what I most wanted. To be set free. Of empty expectations and delusions. Of shadows...

January 20, 2005

[a forsaken past... veiled behind the blood red sky]

[a forsaken past... veiled behind the blood red sky]


Não sei como aconteceu. Não fez sentido, ou pelo menos não me parece a mim que tenha feito sentido. Mesmo tendo sido natural, espontâneo, entre dois risos cúmplices de quem partilha uma confidência. Motivado, talvez, pelo ambiente que nos envolvia, folia etérea que pairava no ar, incognoscível a todos os outros sentidos que não aquela sensação interior que não raras vezes nos diz mais da nossa realidade do que a nossa experiência empírica.

Recordo-me de cair. De mergulhar subitamente no vazio, numa vastidão de nada que não percebi de onde surgiu. Uma sensação estranha tomou conta do meu corpo inerte, senti energia e força abandonarem-me. A minha mente estilhaçou-se em milhões de fragmentos translúcidos que se espalharam no vazio à minha volta. Recordo-me de me esforçar para a manter unida, coesa, de procurar sentir... simplesmente sentir...
Recordo-me do céu, não negro mas carmesim, com uma vasta lua de sangue a iluminar as trevas da noite com rubra luminescência. Contemplava-a por entre a vasta janela em ogiva do quarto deste castelo de pedra antiga... como fui ali parar..?

Estavas comigo. Sentada à cabeceira da cama, fitavas-me com um olhar alucinado, como nenhum outro que jamais tivesse visto em ti. Interrogavas-me, evocavas à luz de sangue um passado que não soube sequer que existiu. Mas que foi e é presente, materializado numa possibilidade remota que há muito esqueci, se é que alguma vez verdadeiramente senti...

Emudeci, angustiado e inerte, sem conseguir fazer ou dizer o que quer que seja. Amas-me, disseste a soluçar, mas não o aceitas, como não querias aceitar que o não sentisse. Choraste, como se fosse pela primeira vez, senti o sal das tuas lágrimas dissolver-se na minha pele... fechei os olhos, quebrei o esforço para manter a minha consciência, deixei-me desvanecer na rubra bruma daquela invulgar noite... senti que me deixaste, rumo à tua própria solidão. Ouvi-te ainda, ao longe, muito longe... apenas a Lua, a lua de sangue feita era real para mim naquele momento em que a minha realidade perdeu o pouco sentido que lhe restava... em que apenas queria esquecer... esquecer...

E, por mais uma vez, desejei, de forma ardente e sanguinária, obliterar todo o meu mundo... definitivamente...

(imagem de autor desconhecido)

January 16, 2005

[I had...]

[I had...]



I had... almost... forgotten the feeling... of becoming evanescent...

... of letting my mind silently escape from me and wander, random and free, through the everlasting night...

... of closing my eyes slowly, with no rush or pain, and then seeing light, not darkness, not the darkness that I've become and my life and my world and everything...

... of becoming nothing, and running free through the nothingness that is me and this place I had never seen or touched or smelled or tasted or even felt with my fingers...

... of thinking about nothing and no one, 'till it was all gone but... but you, slowly coming from the mists of darkness and light...

... 'till your amber eyes and warm smile become the only things I could see, not with my eyes that are blind and shut, but with my heart, long dead and gone, but once again beating second after second... for you.

I love you...

(imagem de autor desconhecido, retirada da Fan Art da Blizzard Entertainment)

January 15, 2005

[believe. belief. beyond...]

[believe. belief. beyond...]


Não sei quanto tempo passou. Sei que foi demasiado, sem nexo ou justificação. Porque estava perdido à partida. Sempre esteve. Tudo o resto foi uma traiçoeira ilusão, devaveio cruel de uma autoproclamada deusa de panteão nenhum. Quis acreditar, mas não o fiz. Disse a mim que não conseguia, mas encontro mentira nas minhas próprias palavras. Não quis. Recusei, recusei-me.


Não sei os seus motivos, nem sei se algum dia os saberei. Apenas sei que por muito tempo eles se materializaram em poderosas correntes invisíveis que não me agrilhoaram os pulsos ou os tornozelos, mas a mente, o coração. Bloquearam-me as asas, negaram-me os céus. Estiquei-as enquanto pude, sangrei, desesperei. Para nada, percebi, com a lâmina entre os dedos, prestes a tomar um caminho sem retorno.

Libertei-me, por um escasso momento, uma noite. Naquela noite, em que pela primeira vez senti os teus lábios nos meus, em que suavemente me envolveste no teu abraço e as luzes ofuscantes se apagaram, o fumo se desvaneceu, o som emudeceu... não fez sentido, bem o sei; mas roubou o sentido a todo um mundo...

Estou livre, agora. Lentamente, tornaste-te presente, passaste de miragem etérea e incorpórea a presença constante e viva, em sonho puro que me assalta quando estou acordado. Quebraste as correntes que me prendiam a nada. Libertaste-me. Dás-me o céu a cada momento, cada palavra escondendo uma estrela só para mim.

Contigo sonho agora, na distância que cruelmente nos separa, sabendo que entre nós não mais fantasmas aparecerão. E que apareçam... estou preparado para lutar, desta vez. Estamos? Pode esta ser uma ilusão, também. Mais uma ilusão. Qual a diferença, então?

A ser uma ilusão, esta é uma ilusão em que vale a pena acreditar. Uma ilusão que vale a pena tornar real. Porque acredito em ti. Porque me fizeste acreditar em mim novamente. Porque me fazes sentir vivo. E porque agora, mais do que nunca, quero sonhar...

(imagem de autor desconhecido)

January 13, 2005

[Moment's Song 02: The Sound of Silence, Simon & Garfunkel]

[Moment's Song 02: The Sound of Silence, Simon & Garfunkel]

Hello darkness, my old friend,
I've come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping...
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence...

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone,
'Neath the halo of a street lamp,
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence...

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more.
People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share,
No one dare
Disturb the sound of silence....

"Fools" said I, "You do not know
Silence like a cancer grows.
Hear my words that I might teach you,
Take my arms that I might reach to you."
But my words like silent as raindrops fell,
And echoed
In the wells of silence...

And the people bowed and prayed
To the neon god they made.
And the sign flashed out its warning,
In the words that it was forming.
And the sign said, "The words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls."
And whisper'd in the sounds of silence.

(Entrou-me no ouvido, há dias... e não mais saiu. Queria escrever algo sobre o silêncio; mas que fúteis palavras poderei eu escrever perante isto..?)


January 10, 2005

[loneliness...]

[loneliness...]


"(...) Mas é precisamente isso que as pessoas não percebem. Não sei, parecem ter medo de estar sozinhas. É certo que há solidão e solidão. Mas não raras as vezes é positivo, para nos encontrarmos a nós mesmos. Para pensarmos. Pensarmos, imagine-se! Quantos daqueles que vivem na frenética agitação desta cidade reservam para si algum tempo para pensar?"

Olho para trás e percebo que alguns dos melhores momentos que passei nesta cidade, desde que para cá vim, passei-os sozinho. A caminhar pelas ruas, de dia ou de noite, deambulando mais ou menos ao acaso, atento às sombras do caminho mas sentindo a minha mente dissolver-se na etérea neblina que sempre a envolve; sentado à janela do meu quarto, com o agradável frio da noite no rosto, dissolvendo na escuridão as quentes baforadas do cigarro, fitando por tempo indefinido a cidade nocturna, embalado pelos seus ruídos silenciosos... melancólico, sempre, triste por vezes, com alguma lagrima mais obstinada a soltar-se... feliz, outras, com um leve sorriso desenhado no rosto e uma agradável sensação de apaziguamento a tomar conta de mim...

Magoa, por vezes, naqueles momentos em que nos sentimos no limiar, em que precisamos desesperadamente de materializar em palavras o turbilhão que nos devasta e consome a alma, e à nossa volta não está ninguém... ninguém para nos impedir de naquele momento de loucura cortarmos os próprios pulsos, ninguém para nos estender a mão, para dizer uma palavra amiga ou para nos dar uma lição de vida... impõe-se, a solidão, devasta-nos, afunda-nos no pântano que nós mesmos criamos. Mas também nos acalma, por vezes. Ouve-nos, em surdina, confere uma liberdade única à nossa mente, torna-se por magia numa tela branca que a nossa imaginação pode colorir como pretender...

Tenho-te por companhia, já, que há muito que a ti me habituei, na ausência das pessoas que nunca estão presentes, que optaram por se afastar, ou que a vida, para o bem e para o mal, afastou... não te imagino diferente, agora. Temi-te, por anos e anos. Não mais. No fundo, que és tu, senão a única confidente de absoluto silêncio, uma das poucas certezas que temos nesta evanescente existência..?

(imagem de Dorian Cleavenger)

January 07, 2005

[what does really matter, after all...]

[what does really matter, after all...]


"(...)He [Reede] looked, curious. "You've reason enough to hate me, considering all I've done to you. Why didn't you leave?"

Kedalion touched his palm, winced.
Property. "I don't know, boss." He looked up again, into Reede's dark curiosity. "Maybe because in all the times you swore at me, and even knocked me around, you never once insulted me about my height.""

(Joan D. Vinge, The Summer Queen, p. 237)

É impressionante como a verdadeira fidelidade não é algo de manifesto; não está presente em grandes acções, mas em pequenos aspectos que nos passam absolutamente desapercebidos durante a maior parte do tempo...

(imagem de Luis Royo)

January 06, 2005

[Moment's Song 01: "Paperdoll", Kittie]

[Moment's Song 01: Paperdoll, Kittie]

I look at her in that paper dress,
I wonder why she won't burn.
She's just a paper doll,
That's all, just a paper doll.

I dress her up she knocks me down...
I dress her up she knocks me down...

They try her on for size
She fits nice, one size fits all.
They try her on for size
She fits nice, one size fits all...

Now her soul is dead,
Now her body's raw,
You can numb her pain...

Watch the blood run down her face,
But don't take notice...
Watch the blood run down her arms,
Please don't take notice...

I know you have her soul,
And I see it in your eyes.
She knows you have her soul,
And she sees it in your eyes...

Now her soul is dead,
Now her body's raw,
wash away her pains...

She wants you to eat her pain,
She wants you to eat her remains...
She wants you to eat her pain,
She wants you to eat her remains...

January 05, 2005

[Still spinning around...]

It was unfinished... time went by, and when my mind woke up, a new year had come. Following the last post, here's my first thought of 2004.

[Still spinning around...]

"Wee. 2004 has come. Televisions all around the globe are filled with images of joy, happyness and amusement. Honestly (should I say 'sadly'..?), I can't figure out why. Why? What changed? What so important had just come?

For me, it is exactly the same. 2003, 2004... whatever. I am as down as I was yesterday. No; I am even worse than I was yesterday. And why? Perhaps it is true one thing I once thought: a year that ends up in sorrow is not as bad as a year that begins in sorrow...

Seems that today I'm loving her even more that I was yesterday. And what for? She never thought about me in all this time for sure. Not even for a moment, for a mere second, for a heartbeat...

Thing is, there's nothing I can do about it. I am defeated. The fall was too high, the impact too strong. I was beginning to believe. The last time I was with her was simply... wonderful. She made me believe it was possible. And what for? She disappeared as soon as we were apart, leaving me sinking in sorrow and pain, helpless and alone. And now, what can I do? I just don't know... this new year seems so... dark... No plans or expectations. I'm just waiting to see what is coming. For good or bad.

"FALLING FROM HEAVEN IS NOT AS PAINFUL AS SURVIVING THE IMPACT.""

(happy new year...)

(01.01.2004)

Não se pode dizer que este sentimento seja actual, apesar de a frase, o meu lema de vida dos momentos mais sombrios (do meu "darkside") ser eterna. Mas é sempre curioso recordar isto, pensar em tudo o que acabou por acontecer em 2004 - sem dúvida, o ano mais surpreendente - em ambos os sentidos - e irregular da minha vida. Para 2005 tenho mais expectativas do que tinha há exactamente um ano. Agora, como disse eu a alguém, "é esperar para ver... e fazer alguma coisa por isso".


January 02, 2005

[end of year]

Wish I had this done before, in the exact moment, but this year's réveillon was far better than last year's... late in 31st January 2003, I wrote this small text about what I was feeling then... it continued the following day, the following year. Was to be published in the Darkside... but since the Darkside is no longer, here it is, one year after: Fallen Angel's last thought of 2003

[Rebirth?]

"Don't know why, but it seems my "réveillon" is going to be, in a way, a kind of last year's déjà vu... with only one exeption: last year had plans. This year, I don't.

I'm gonna work in the same place, with the same people, doing the same things. This is no complain, mind ya. I kinda like what I do. But sometimes I can't avoid wonder if it wouldn't be fun to do somethin' different... with my friends, for instance...

Again I am falling, this year deeper than I was last year. Behind in the past, the trouble had a name. Now, only the source of my sorrow's name changed.

'Seems there's some kinda odd pattern in here - the new year comes, and my heart is broken. I hit the ground again. Not for somethin' that have just ended, but for somethin' that didn't begin, and won't. What can I do 'till Khronos the God of Time has pity of my soul and release my broken heart from this love? Time heals anything, they say. Honestly, I don't know. I just hope that to be true.

Plans for the next year? None. 'Got no plans or expectations. I'll do the best I can with whatever is coming. Maybe tomorrow I have changed my mind and say something different... after all, it'd passed a year, right..?"

(to be continued)

(31.12.2003)

Este ano foi diferente, para melhor. Mas há algo da velha sensação ainda aqui... algo da antiga sombra que persiste ainda... não estive sozinho, fisicamente, pelo menos. Mas sempre a sombra de mágoa me acompanhou, para onde quer que fosse...


December 28, 2004

[praise darkness...]

[praise darkness...]

Devagar, o sol, eterna luz do dia, esconde-se por detrás da longínqua linha do mar sem fim, por entre as negras nuvens que em tão remota distância se começam a formar. Os céus de cristal azul alteram-se, um prisma de cores radiantes banha agora a esfera celeste, desvanecendo-se a radiância na escuridão que do céu começa a tomar conta a Este.

Uma brisa fria sopra subitamente de Oeste, do horizonte de luz em declínio, da escuridão anunciada. Não se ouve mas sente-se, o avanço inexorável da Noite, em passinhos suaves como veludo. Sonhos desvanecem-se na queda da aurora, o silêncio apenas cortado pelo som constante da rebentação contra os rochedos ancestrais toma conta do cenário, envolve-me suavemente como num traiçoeiro abraço.

Escurece. Não ainda, que o brilho do dia ainda respira por ora. Mas já inevitáveis são as trevas.

Vem, doce Noite. Aniquila a luz da ilusão, embala-me ao som do teu silêncio, leva-me contigo para lugar nenhum...

(fotografia por "Freyja")

December 24, 2004

[Sofia (uma rapariga como outra qualquer) II]

[Sofia (uma rapariga como outra qualquer) II]

"Passeio solitária pelas ruas desta cidade, por efémeros mas longos dias convertida, por efeito dos inúmeros motivos de forma e natureza diversa, se bem que com objectivo similar, que decoram todo o espaço, em tremendo pinheiro de Natal. Está frio, sinto-o entrar em mim por todos os sítios por onde pode - e até, para minha surpresa, por alguns por onde supostamente não deveria conseguir - e instalar-se junto da minha pele, desconfortavelmente. Sinto um húmido arrepio atravessar-se a espinha de uma ponta à outra, enterro as mãos nuas bem fundo nos bolsos do casaco. Não, não é psicológico, o frio. Pelo contrário: é real, bem real, demasiado real. Não há consolo, afastamento, alheamento mental que lhe valham. Pelo menos quando se deambula pelas ruas, não tão agasalhada como talvez devesse, em vésperas do solstício de Inverno...

Cânticos de Natal ouvem-se aqui e além, invadem-me a mente fria. Conheço-os; recordo-os das vezes incontáveis que os ouvi na televisão, na rádio, na música ambiente de algum elevador. Mas não são estes que me ocorrem; são, sim, aqueles que em criança aprendi na Igreja, as melodias alegres e ritmadas que louvavam o nascimento de um menino, desprovido de qualquer riqueza. Observo na montra rodeada de luzes coloridas de uma loja um presépio, paro por instantes a olhar para o pequeno cenário da Galileia aqui, nesta montra: a cabana de colmo, os montes de palha aqui e além; o burro e a vaca, seus habitantes de sempre, perto daqueles que a eles se acolheram numa qualquer noite fria - José e Maria -, pois que os seus os desprezaram, ajoelhados perante uma manjedoura de madeira irregular onde jaz, alheio ao cenário, no desconhecimento talvez do seu inescapável destino que para sempre mudaria o curso da História, um menino recém-nascido, de nome Jesus, a quem os profetas e sibilas, nas suas visões evanescentes, atribuíram a redenção dos homens; junto da cabana, como que a aproximar-se, um grupo de pastores; atrás, mais longe, ainda perante uma longa jornada, três reis magos que de terras distantes saíram para louvar Aquele que anunciará a Boa Nova, e para a ele ofertarem prendas dignas de monarcas; no topo da cabana, qual sinal de júbilo celestial, uma estrela repousa, adivinhando-se o coro de anjos entoando coros fantásticos em seu redor. Sorrio, triste. Como chegou o mundo a este ponto? Isto que aqui tenho diante os meus olhos, isto que está representado do outro lado desta lisa superfície de vidro é o Natal, o verdadeiro Natal - o nascimento do Salvador. Nele repousa, qual tesouro há muito esquecido pelos homens pelos quais nasceu há mais de dois mil anos, o verdadeiro espírito de Natal. Que tem ele a ver com o velho bonacheirão, de barbas e bigode de neve, vestido de rubro vermelho, que distribui prendas pelo mundo inteiro, atravessando os céus num trenó alegadamente mágico puxado por renas? Que tem o Natal a ver com o consumismo desenfreado, batuta invisível mas incontornável que pauta o ritmo da sociedade de hoje? Ó avó, que saudade das tuas prendas dadas, com um sorriso nos teus lábios, dizendo que era pelo Menino Jesus... pois que dele era, de facto, a noite da consoada; porque cruelmente lha tiraram...? Nos tempos modernos, como se explica a uma criança que, afinal, o Pai Natal não existe, e que, afinal são os seus pais e familiares que lhe dão os presentes? Que sabias tu disso, avó? Nada, nem precisavas. Deus existia, tinhas a certeza dele. Todos a tinham. O resto, seriam histórias, fantasias, devaneios para entreter a imaginação, que a felicidade deles não precisava para o que quer que fosse.

Retomo a marcha, enfrentando o frio da rua, ainda com a imagem do presépio na mente. Não me identifico com o catolicismo, pelo menos não mais. Considero-me cristã, se bem que não praticante, não por teima, mas por opção, por filosofia, se assim se quiser considerar. A minha mente é demasiado livre, incapaz de se prender a um qualquer ponto do imenso vazio que a rodeia. E entendo a fé é algo que se sente cá dentro, não como algo que se mostra lá fora; que sentido fazem, então, os rituais? Para quê deixar-me levar numa desfilada de encenações quando tudo aquilo que verdadeiramente conta está dentro de mim? Terei porventura menos fé do que uma daquelas senhoras - beatas, como pejorativamente se costuma dizer - que rezam de manhã, à tarde e à noite, vão à missa a cada domingo e dia santo, seguem o terço e tudo mais? Serei descrente por não fazer tudo isso? Sei que existes, Deus, que deves existir algures, mas isso é algo que não sei explicar, e que já desisti de tentar. Descobri-lo-ei um dia - descobrir-te-ei um dia - para o bem ou para o mal, não importa. Ainda assim, entristece-me pensar que a Humanidade foi capaz de deturpar o Natal a este ponto. A sua essência original perdeu-se, diluiu-se no meio da massa inerte, resiste nos corações daqueles poucos que recordam ainda a história do nascimento de Jesus. Mas estes poucos não se vêem na turba inconstante, na multidão que nesta época invade os centros comerciais, compra avidamente prendas para toda a gente, bombardeia amigos, conhecidos, e, até, no caso de alguns com menos decência - ou talvez não -, inimigos com mensagens de natal por telemóvel, cumprimenta meio mundo com um estupidificante sorriso de alegria forjado no rosto quase à martelada, ou longamente ensaiado para a ocasião festiva... qual ocasião festiva?

Às vezes penso que o erro deve ser mesmo meu. Porque haveria eu de estar certa e meio mundo errado? Afinal, eu é que sou a outsider, a fora do mundo... a verdade é que o Natal pouco ou nada me diz. Imagino que seja triste dizer uma coisa destas numa época destas, mas é verdade. Desconheço quase por completo a tradição de juntar a família na consoada para um jantar, uma vez que a minha estrutura familiar para além do meu núcleo foi, é e será sempre incapaz de tal - ao menos não a posso acusar de hipocrisia, tenho de o admitir. Época de paz, de amor, de reconciliação, diz toda a gente em toda a parte. Essa era uma parte da mensagem original. Mas era apenas o princípio. O Natal é só um dia! Um dia de inigualável pureza, irremediavelmente convertido à hipocrisia e ao cinismo pelo culto pagão da modernidade e do eterno consumo... Porque sorriem as pessoas agora, quando andam trombudas durante os restantes trezentos e sessenta e quatro (ou cinco) dias do ano? Porque se juntam agora, se nos outros dias não foram capazes sequer de trocar um singelo telefonema, uma carta com duas palavras que fossem? Porque se deve amar agora, quando tudo à nossa volta no restante tempo nos ensina a odiar? Época de paz? O meu espírito está em guerra, agora, mais do que nunca. Porque haveria ele de me dar tréguas neste momento?"

(João Campos (Fallen Angel), Sofia, excerto do capítulo 2)

December 19, 2004

[time...]

[time...]

... uma pequena cobra que espreita por entre as irregulares pedras da fonte, dançando embalada pelo mágico som da água em mansa queda, ao ritmo da fria brisa que de parte incerta sopra, suave, como um sussuro... a luz cristalina do entardecer que por entre as persistentes nuvens abre caminho, cedendo tranquilamente, por mais uma volta do ciclo eterno, o lugar ao crepúsculo, à escuridão que nunce verdadeiramente nos envolve... confidências sérias, riso, um compromisso futuro que não se afigurará tão distante talvez, palavras trocadas no silêncio que nos envolve em sonho, o passado ancestral esculpido em pedra a cada esquina, o verde natural sempre presente, o inconstante bulício humano que se desvanece... há muito que me esquecera da sensação; e, apesar de nunca ter lá estado antes, senti-me em casa, como se tudo aquilo que contemplava ou concebia como existente para além da escassa visão que as fragas de tons esverdeados do fofo musgo me permitiam fosse meu, nosso, só nosso... não senti Tempo, não senti dor, não senti mágoa... Apenas um imenso apaziguamento interior, uma sensação de leveza de espírito, de evanescência... tudo se dissolve neste final de tarde infinitamente doce, onde tudo e nada importa, onde a descoberta do mundo e de nós se tornam numa caixinha de supresas... Contemplo a luz a declinar no horizonte, ouço o renascer dos sons da noite que chega, a passinhos mansos para nos não perturbar, e é como se sentisse o Futuro a aproximar-se, velado no surpreendente sabor que me dás a provar... um Futuro onde a luz pode nascer, onde concebo acreditar na sua presença, na sua radiante aura...

Um momento perfeito...

December 16, 2004

[Sofia]

(Hoje não irei fazer reflexões metafóricas, divagações, devaneios (ou não?). Deixo-vos um excerto escrito por mim, de uma ideia que já cá andava há algum tempo, e que comecei a materializar. Estes são os primeiros parágrafos? espero que gostem...)

[Sofia]


"Não sei porque parece incomodar tanto as pessoas a solidão, o silêncio. Há anos que penso nisto, e nunca consegui chegar a nenhuma conclusão que à minha compreensão se afigure como minimamente válida. Será por a sucessão dos dias no inexorável decurso do tempo ter, ou aparentar ter, um ritmo absolutamente vertiginoso? Há algo de estranho em tudo isto. Vivo num mundo de multidão em inerte movimento, inconstante, indiferente a si mesmo e à sua própria existência. Não há consciência, não há interacção no seio da massa. Nela, estamos todos juntos, mas todos invariavelmente sozinhos; qual é a diferença, então, que faz toda a gente olhar para mim com uma expressão que reflecte uma pluralidade de sentimentos, que oscilam entre os desprezo, a pena, a estranheza, quando me sento só, na mesa de um qualquer canto do bar da escola, a fumar um cigarro e a desvanecer a minha imaginação no ténue fumo que a baforadas regulares sai da sua ponta incandescente?

Não correspondo ao padrão, bem o sei. Devo, aos olhos do mundo em permanente agitação irreflectida, sem rumo ou destino, assemelhar-me a uma proscrita, talvez. Não está longe da verdade; desde cedo que me habituei a estar sozinha, a conviver comigo na minha solidão, na minha imaginação. Nada de intencional, de premeditado; proporcionou-se assim, simplesmente. Não tendo uma família na tradicional significação do termo - que é como quem diz, um grupo de parentes unidos, sempre presentes ainda que distantes, que se juntam nas festas, convivem, preocupam-se -, tive de aprender a lidar com isto em criança.

Sempre fui introvertida por natureza; e esta propensão do meu espírito acabou por, ao longo dos anos, me afastar do mundo de brincadeira e camaradagem dos meus colega de escola. Não por não simpatizar com eles, bem pelo contrário. Simplesmente era bem mais fácil para mim perder-me nos meus devaneios, fitando o recreio com um olhar exterior vazio que na sua essência contemplava uma vastidão de mundos fantásticos que mal conseguia conceber. Não conseguia dar o primeiro passo para me aproximar de alguém, meter conversa, brincar, rir. E, entre crianças, quem procura puxar para si alguém que está fora porque quer - ou porque não quer -, ainda que isso não corresponda bem à realidade? Não se pode exigir isso de crianças em idade escolar, num ciclo tão singular do desenvolvimento. E, quando se entra na adolescência, a situação evolui. Para pior. Se em criança não me identificava com as brincadeiras de bola e outras mais ou menos agressivas dos rapazes, nem com o mundo elementar das brincadeiras de bonecas das raparigas - que, diga-se de passagem, consistem em formar famílias, criar pseudo-relações à imagem dos papás e das mamãs, ter filhotes, uma casinha engraçada; a coisa, diga-se de passagem, não vai muito mais além - também agora, que sou adolescente, não me identifico com os temas de conversa que permitem a integração num grupo e que me abririam as portas ao mundo da companhia, do convívio - em suma, do mundo não solitário. Tudo me parece tão sem importância, tão... fútil? Não sou melhor nem pior do que ninguém; serei, quanto muito diferente. Mas desde quando ser diferente tem forçosamente de ser mau?"

(...)

(Joao Campos, Sofia)

December 14, 2004

[burned into oblivion - the freedom of the daybreak]

[burned into oblivion - the freedom of the daybreak]



E eis que vi. Simplesmente. Vi aquilo que só então percebi que não queria ver, que jamais quisera ver, mas que estava ali, reluzente como mercúrio.

Ingenuamente julguei que pudesse ser visão, alucinação, devaneio inconstante de uma mente febril; acaso de súbita loucura de uma imaginação já de si débil, errática, quase destrutiva, no limiar da insanidade. Fechei os olhos, voltei as costas, recuei. Hesitei, disperso, confuso, fragmentado. Abri por fim os olhos, inspirei fundo, como se no frio ar da noite existissem algumas moléculas errantes de coragem que me insuflassem de força, e olhei novamente.

Nada mudou. Ainda ali estava, exactamente no mesmo lugar, mas agora com uma expressão marcadamente trocista, imponente padrão da vitória que marca a minha derradeira derrota. Não consegui desviar o olhar. Tempo e Espaço desvaneceram-se, perdi-me no impetuoso turbilhão de imagens em cadeia que subitamente assalta o meu espírito, domina os meus pensamentos, tolda os meus sentidos. Espectros - ilusórios, talvez? - que conscientemente aceitei mas que no inconsciente veementemente recusei, e cuja existência temi mais do que tudo. Meu Deus, como me enganei..! Quero fugir, desaparecer, tornar-me etéreo com a brisa da noite e nos seus braços gélidos voar, voar para longe, até ao infinito, até lugar nenhum... até um lugar sem trevas nem luz, onde o nada que sou se funda com o nada que é em si, e que dessa fusão seja criado nada... ou, num toque de amarga ironia do Destino, que brote espontaneamente alguma coisa... mas é tarde de mais, é tarde de mais...

Não há retorno. Solidão, minha eterna escolha, companheira última entre as quatro paredes inertes desta cela vazia onde entrei. Hesitei, por instantes, trespassou-me a mente a ideia de desistir de tudo, de suplicar, de me entregar à morte, no momento último antes de a pesada porta de ferro se fechar e de inevitavelmente me mergulhar no vazio caótico do espelho da minha própria dor.

"A aurora chegará", sussurra uma voz, nem sei bem vinda de onde... é meiga, doce, como nos poucos sonhos puros que ainda me restam... és tu? Que queres dizer? Esperança? Ou um fim inevitável? Devo entregar-me, render-me a esta força que me esmaga sem me tocar? Ou antes devo estoicamente resistir, aguentar..?

Aguentei. Por ti, na esperança que as palavras fossem tuas. Agora espero a tua aurora.

December 10, 2004

[storm inside and out - thoughts in chaos I]

[storm inside and out - thoughts in chaos I]


Sento-me à janela deste quarto soturno e relembro. Imagens difusas de tempos passados e futuros, cenários evanescentes que não sei se efectivamente vi. Cai a noite, nuvens de tempestade cobrem o horizonte, relâmpagos fulgurantes iluminam as trevas que o crepúsculo instala. Vejo-as, contemplo-as desta distância que decerto alcançarão. Não as temo. Sinto-me confortável no meio do caos exterior, do turbilhão que se inexoravelmente se aproxima, ameaçando a minha instalada melancolia.

Uma sucessão de intermitentes perguntas ocupa momentaneamente a minha mente, violentas como a tempestade longínqua que o meu olhar vazio fita. Não respondo, pois que há muito que as suas respostas se me escapam como areia entre os dedos quando nos meus tempos de criança a tentava suster. Exercício fútil, tão fútil como os pensamentos suicidas que me abalam. Que a morte defina a vida... mas que não a oriente, que não a governe. Jamais entenderei os devaneios da minha imaginação, mesmo os que qualquer um designaria de positivos, que há muito se evadiram dela. Não me entendo a mim; como poderei, então, almejar entender os outros..?

Estou sozinho mas não estranho. Não mais, que a ela já me acostumei há muito. Sabe-lo bem. Ainda assim, atreves-te a violar a minha melancolia solitária, atravessas as trevas do quarto, sentas-te a meu lado. Nada dizes, fitas a tempestade com um olhar nostálgico. Vejo os teus olhos azuis perderem-se nela, deixo-me embalar pelo ondular suave dos teus negros cabelos lisos ao vento frio da noite. Leio na tua expressão doce a minha dor, sinto na tua alma ardente a minha melancolia. Como tudo está tão errado, meu Deus..! Devaneios que não fazem sentido, recordações persistentes que se impõem e de seguida desaparecem, resoluções que tanto custam e que logo são anuladas... sinto-me tornar-me etéreo, desvanecer-me na brisa, envolver-me no centro em erupção da tempestade. Não estou aqui, estou em parte nenhuma. Perdido, encontrado, algures, onde? Não o sei, não o sabes, ainda que o soubesses... vejo-me em ti, não te vejo em mim, pois que nem eu me vejo mais em mim...

Recordo quem fui, quem sou. Reconstruo-me de novo a partir de fragmentos, como se estivesse a caminhar em cima de cadáveres do passado. Não sei o caminho que se esconde para além da tempestade. Não sei o caminho que se esconde para além do indigo dos teus radiantes olhos. Não sei...

... qual o sentido de tudo isto? É real, ao menos..?

December 04, 2004

[the last run, the last stand, the last fight - for there are somethings that simply cannot be changed]

[the last run, the last stand, the last fight - for there are somethings that simply cannot be changed]


Gotas frias caem dos céus nublados, batem-me no rosto. Ignoro-as. Continuo a andar, indiferente à chuva, ao frio, à escuridão cortada pela pálida lua que espreita por entre as nuvens opacas no limiar do horizonte.

Encontro-a, por fim, num lago imenso. Imóvel, contempla os céus de amena tempestade com um olhar vazio, uma expressão etérea, tão etérea como ela própria. Está diferente. Perdeu a sombra - talvez por estar num mundo de sombras? Ó seu olhar tornou-se sonhador, distinto do que antes conheci mas igualmente belo. Não se apercebe da minha presença, ou pelo menos finge não se aperceber.

"Parece que desta vez sou eu que interrompo a tua solidão."

Ela sorri vagamente, sem se virar para mim. "Não propriamente. Esperava que aparecesses, mais cedo ou mais tarde."

Aproximo-me dela, fico ao seu lado. Contemplo a distante lua. Por segundos, ambos nos quedamos imóveis, silenciosos. O vento sopra, suave, frio, como um suspiro.

"Ajuda-me", digo-lhe, por fim.

"Estás perdido, não é?", pergunta-me ela, olhando para mim. Sei que ela sabe exactamente o que se passa comigo, apesar de não fazer a mais pequena ideia como. "Pensaste, fugiste, enganaste-te... e agora cais em ti, olhas para trás e percebes tudo. Olhas para a frente... e não percebes nada."

Rio-me amargamente. "Precisamente..."

"O que vês tu, quando olhas para trás?"

"Vejo uma perda tremenda. Silêncio. Um silêncio onde nada foi dito, mas devia."

"E quando olhas para a frente..?"

Não respondo.

Num gesto suave, ela estende a mão para o meu peito e segura o cristal incandescente. "Não vês nada quando olhas para a frente porque não há lá nada para veres. Mas tu sabes o que podes ver, assim como o que não poderás ver. Já deste o passo mais importante, que foi assumires isso para ti."

"E como sabes tu isso?", pergunto-lhe quase instantaneamente.

"Se assim não fosse", responde ela, com um sorriso, "não estarias aqui, agora."

Desvio o olhar, volto a fitar a lua, angustiado perante a revelação de mim mesmo nos seus lábios sensuais, na sua voz doce. Não percebo como.

"Há coisas que simplesmente não podem ser mudadas", continua ela. "Não importa se lutamos contra elas ou se fugimos delas para o mais longe possível... elas permanecem, ainda que nas sombras, até que voltam a emergir. Por mais que as queiramos recusar."

"Então e que posso eu fazer?"

"A escolha é tua, como sempre o foi, talvez. Podes fazer o que quiseres."

"Não será tarde demais?"

"Só o saberás se tentares."

"E será que devo?"

"Segue o teu coração, planeswalker. Ele estará certo. E lembra-te da tua própria filosofia: é melhor te arrependeres de algo que fizeste... o Futuro te dirá se a tua escolha foi a acertada. O mesmo Futuro que te atormentará com um eterno 'e se..?' no caso de optares ignorar tudo isso que tens aí... nesse cristal."

Seguro o cristal rubro, fixo o olhar nele por momentos. Sorrio. Tantas perguntas que estão sem resposta... tanta coisa que não consigo ver... mas que não conseguirei ver jamais se não me atrever a dar um passo em frente.

Olho para a lua. Chega, penso para mim. Não posso continuar neste caminho que não me levará a lugar nenhum. Um rumo define-se agora, neste momento. Sem pensar. Apenas a fazer o que a anjo me disse... seguir o coração.

"Obrigado", digo-lhe.

"Não agradeças", responde ela, dando-me a mão. "Vai. Não olhes para trás. Não mais. Acredita em ti... e luta."

Olho para ela a derradeira vez. Permanece um enigma para mim. Mas um enigma que sei que surgirá sempre que eu precisar. No fundo... no fundo sei quem ela é, e porque me ajuda. Mas não importa.

Há coisas que não podem ser mudadas, disse ela. Que esta seja uma delas, penso, desvanecendo o meu corpo deste mundo sombrio e voltando ao caos do espaço entre mundos, em busca de algo que não mais estou disposto a perder.