[Through the Gates of Hell VIII - No Fear nor Hope]
"Tu nunca estarás livre, guerreiro", diz um voz cavernosa que surge algures das trevas por detrás dela.
Por entre as brumas emerge um demónio. Imenso na sua armadura negra, segurando uma espada na sua enorme mão, fita-me com um olhar ígneo, de fogo vivo. Sorri para mim, altivo, num misto de triunfo e desprezo, e caminha para a guardiã. É mais alto que ela, bem mais.
"Por que vieste tu até aqui?", pergunta. "Entregas-te à morte assim , por ela? Chegas tarde, sombrio paladino. A batalha terminou há muito, e os teus saíram derrotados. Os despojos já foram divididos." Coloca um braço à volta dos seus ombros e olha para mim vitorioso. "Ela agora pertence-me."
Olho para o par, procuro esconder o súbito sabor amargo que me invade a boca. "Não vim por ela, demónio, mas por mim. Somente. E ela não te pertence."
"Achas mesmo que não?"
"Apenas te pertencerá se ela assim o quiser." Olho para ela, procuro na sua expressão carregada algum sinal de resistência, de desejo de libertação. Mas face cuja suavidade e a beleza recordo está neutra, sem medo ou esperança. Conformada, estática, imóvel como uma estátua de pálida porcelana envolta numa armadura de sombras.
Sorrio, indiferente, ainda que triste. Não adianta continuar. Não posso lutar para a salvar das garras do demónio. Não sozinho. E, ainda que tentasse, ela não lutaria ao meu lado.
Nada me resta aqui.
"Não importa", digo, procurando afastar-me destes pensamentos. "Como lhe disse, estou apenas de passagem. Vou sair, para fora deste inferno."
"Julguei que ela já te tinha dito que não podes sair do inferno, paladino", diz o demónio, por entre uma gargalhada malévola.
"Ela disse", respondo, fitando-o nos olhos apesar de ser bem mais alto que eu. "Mas isso não me impede. Vou sair daqui, de uma maneira ou de outra. A bem", digo, desembainhado a minha espada, "ou a mal."
(continua)
(imagem de Luis Royo)