Sonhei contigo esta noite - um cenário difuso, com tanto de familiar como de desconhecido, com tanto de real quanto de irreal. Era noite, chovia, não fazia frio fora de nós. Perdíamo-nos, sem como ou porquê, sem um adeus ou um aceno de despedida. Não havia suspiros ao luar inexistente ou sal de lágrimas a misturar-se com o súbito amargo da chuva que os negros céus vertiam. Não havia saudade - apenas uma mágoa tremenda, sem explicação, que me consumia a pontos de quase me explodir no peito. Acordei, sobressaltado - e onde estavas tu..?
testing a new face for the old blog. tried other platforms, but no other seemed good enough.
August 10, 2005
August 07, 2005
wonderwall
Hearing the electric sound echoing everywhere triggered inside me only memories. Not desire, not passion, definetely not love - only the shining memories of the perfect morning when I first said "I love you". When I frist realised what those simple words meant. When I first felt what they meant.
I may have heard the singing voices with you - but my heart was far from you, as far as yours was from me. We both know that innocent truth - that you and me were thinking about someone else. That time has passed, and now our hearts, together for a moment, belong to someone that may not even dream with us. We chose to break, to follow different paths - giving up of our warm arms and soft kisses to embrace, for good or ill, the ever uncertain fate. May the ashes of our never forgotten love rest in peace in the sea, in the sky, everywhere. Tonight we remembered it - tomorrow we will be smiling at that old memories. We were not meant to belong to each other. But maybe we are meant, in the end of our paths, to belong to someone that will love us as we once loved each other.
July 20, 2005
Diário do Planeswalker
A única coisa que a sua visão turva podia perscrutar da cidade em estático movimento era similar a uma alucinação. Um mar de indivíduos sem rosto cobria as ruas de penumbra. Sem sombra. Sem alma. Não havia ali qualquer presença, qualquer forma velada de bem ou de mal. Apenas indiferença, corpos de carne e osso suados ao frio calor daquela hora incerta. Rostos indistintos, sem emoção, sem reflexo. E sempre, a persegui-lo, como a sombra que misteriosamente não projectava naquele mundo singular, a estranha sensação de quebra na sua imortalidade e no seu poder. Tudo aquilo que sabia lhe parecia difuso, insignificante. Menos a evidência que inevitavelmente traíra as suas expectativas: ela não estava ali.
July 19, 2005
Diário do Planeswalker
E eis que, de súbito, sente um desconforto a expandir-se dentro de si, a alastrar devagar por todo o seu ser, tomando de assalto a sua até então (quase) inabalável autoconfiança. O novo mundo aonde as divagações pelos fluxos de energia do cosmos o haviam conduzido impunha-se-lhe, agora, na sua vastidão de rubros rochedos nus, nos seus céus de breu sem estrelas, na sua ausência de uma fonte primordial de luz. Sentia as forças daquela natureza a convergirem, a darem-lhe forma. Mas não lhes podia tocar como outrora. Não as podia mover, manipular, moldar ao mero sabor do seu desejo e do seu poder latente. Algo na essência daquele mundo inóspito lhe era estranho, diferente. Nela não podia simplesmente entrar. Nela, não detinha qualquer poder - a ela, ao qualquer deus que a concebera, cabia todo o poder. Necessitava de um esforço, de uma concentração que nunca se preocupara em dominar porque nunca lhe fora necessária. O que, de imediato, lhe provocou uma torrente de dúvidas em desalinho, nas quais se erguia a simples questão - o que fazer para sair dali.
July 18, 2005
"Por que é que o homem não encontra a paz?" Porque o homem não quer. Assim como, paradoxalmente, não quer ver essa realidade tão evidente. O homem não é o ser pacífico, carinhoso, solidário e generoso que atribuímos àqueles que são "humanos". Ser humano é tudo isto. Mas mais, muito mais. É ser guerreiro, conflituoso. Ambicioso para com os seus superiores, sedento de domínio sobre os seus inferiores. Invejoso, ciumento, incapaz de partilhar duas palavras de conforto por vezes. O homem ama, mas odeia. Cura, mas fere. Dá vida, espalha a morte. Somos assim, uma antítese personificada que ao invés de se anular se materializa, aqui: nesta concha de pele e sangue e alma que nos dá forma e nos define.
(post inspirado por um artigo do blog da Deusa da Lua, cujo link aparentemente não funciona)
July 13, 2005
O amor não é material. Não depende de uma carteira, de um carro, de uma casa. De um emprego. De uma distância física que impede o toque, o beijo, mas que permite que os amantes, cada um na sua janela, possam ver a mesma lua, as mesmas estrelas. Depende de um olhar, de um gesto. De um sorriso discreto, de um rubor na face. De um suspiro apaixonado às ondas do mar, de um sussuro à brisa que passa na caruma dos pinheiros. De uma batida de coração mais forte quando se adivinham os amantes na próxima esquina, ou do outro lado da porta que em breve se abrirá de par em par. Depende de um sonho - que não existe mas que se sente, que não se mostra mas se impõe. Que ninguém vê, mas que é evidente. Não para quem vive no mundo material - mas apenas para aqueles que amam e sabem amar.
July 11, 2005
memories of Jane
A recordação de Jane é tão evanescente como uma memória *irreal* pode ser. O ar inocente, algo perdido na densa floresta humana, de que os seus olhos avelã eram reflexo contrastava quase agressivamente com a sua descontração perante a vida e o mundo que sabia inescapáveis. Nunca lhe soube a idade - nunca lho perguntei, e o jogo de opostos que a sua sofisticação de mente revelava a cada gesto, a cada palavra, nunca mo permitiu adivinhar. Sei que era de longe, de muito longe. Soubemo-nos na distância que nunca nos permitiu ver um ao outro pelos olhos do mundo real. Apenas no sonho, nos devaneios da imaginação que se esprai como um suspiro na brisa fresca da noite de Verão. Sorrimos com os lábios do pensamento, aos olhos da lua. Jamais a esqueci.
July 09, 2005
our days are never coming back
Recordo-me da última vez que te vi. Estavas no limiar da porta aberta que para sempre se fechava. Havia um muro de silêncio entre nós. Invisível, intangível. Olhei-te nos olhos pela última vez. Estavam apagados. A luz de estrelas que me fascinara desaparecera - morrera, talvez, num último suspiro, ou simplesmente desaparecera do (meu) céu. Senti os meus olhos a arder. Algo agonizava, morria, e eu sabia-o, sentia-o, e nada podia fazer. Os teus olhos estavam apagados.
June 27, 2005
The Dead Poets Society
The Dead Poets Society
The night is made of crystal.
There is no sound out there in the wild of concrete and glass and human minds asleep.
The wind is quiet, his breathe suspended.
The Moon fades, upon the sky of dark.
The room stays still, my ghost haunts it.
Darkness surrounds, in silent steps.
The city is dead, to live again.
The concrete walls fall, undisturbed.
The glass shatters, silently.
The human body sleeps, unaware.
The minds awake, his eye lies open.
The face of the dream draws near, with the glowing stars.
The dream is now free. And,
Though the city lies in pieces
And the body is dead, asleep,
The dream lives, to never die.
O CAPTAIN! my Captain! our fearful trip is done;
2
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
3
My Captain does not answer, his lips are pale and still;
The night is made of crystal.
There is no sound out there in the wild of concrete and glass and human minds asleep.
The wind is quiet, his breathe suspended.
The Moon fades, upon the sky of dark.
The room stays still, my ghost haunts it.
Darkness surrounds, in silent steps.
The city is dead, to live again.
The concrete walls fall, undisturbed.
The glass shatters, silently.
The human body sleeps, unaware.
The minds awake, his eye lies open.
The face of the dream draws near, with the glowing stars.
The dream is now free. And,
Though the city lies in pieces
And the body is dead, asleep,
The dream lives, to never die.
1
O CAPTAIN! my Captain! our fearful trip is done;
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring:
But O heart! heart! heart!O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
2
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up - for you the flag is flung - for you the bugle trills;
For you bouquets and ribbon?d wreaths?for you the shores a-crowding;
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!This arm beneath your head;
It is some dream that on the deck,
You?ve fallen cold and dead.
3
My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchor?d safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip, the victor ship, comes in with object won;
Exult, O shores, and ring, O bells!But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
Walt Whitman
(for those who dare to dream)
June 17, 2005
[para além do mar]
Um dia encontrar-nos-emos novamente. Longe, para além do mar imenso que contemplamos, para além das distantes estrelas que polvilham de luz o breu do céu nocturno. Um dia, em paz. Toda a mágoa apaziguada, toda a dor dissolvida. Sós, no infinito, frente a frente pela derradeira vez - ou, talvez, pela primeira vez, verdadeira, em todo o sempre. Então me entenderás e eu a ti sem que uma palavra seja trocada. Então todas as escolhas convergirão na compreensão de uma existência errática e selvagem. Então seremos só nós, solitários no vazio, sem espaço ou tempo que nos limite. Então existirá compreensão, redenção dos erros, perdão do ódio, memória do amor. Sorrir-te-ei, em paz, e tu a mim. Perceberei os teus passos, e tu os meus. Aceitaremos a vida que se esconde a poente, abençoaremos a noite que nos desvanecerá e aos nossos mundos.
Um dia, quando a última estrela brilhar nos céus, intensa como nenhuma outra, memória última de um mundo que se extingue.
Um dia, quando a última estrela brilhar nos céus, intensa como nenhuma outra, memória última de um mundo que se extingue.
Um dia... para além do mar....
June 13, 2005
[different paths]
[different paths]
Talvez seja agora o momento. Agora, quando não o espero, quando não o sinto. Agora, quando olho para o horizonte de crepúsculo e já não vejo o Sol descendente velado por um manto de sombra. Os ventos mudaram, e trouxeram uma nova esperança a este mundo devastado. Não há ainda nas árvores novos rebentos - nem creio que venha a haver até ao frio Inverno -, mas toda a terra morna irradia um aroma de fecundidade. Os vapores etéreos que por entre as cinzas dos despojos de guerra se escapavam deram lugar a uma suave névoa matinal. As frescas brisas das florestas do Sul trazem os ecos das palavras doces que me segredas ao ouvido.
Cai a noite, mas não mais a temerei. No céu já brilham estrelas novamente. A sombra desvanece-se. A noite avança, a aurora radiante aproxima-se. Ela afastará o que das trevas restar, os fantasmas de outros tempos que perduram num mundo que não mais será seu. Talvez não acorde para ti. Mas decerto o meu novo acordar se deverá a ti, e só a ti.
June 06, 2005
reflexão de lp girl
(lp girl: como te disse, inspiraste-me, e quando é assim nada há a fazer. O teu texto foi o melhor pretexto que poderia ter encontrado para a materialização destes pensamentos.)
Não costumo alimentar sonhos de retorno, sabes? No fundo creio o amor como a guerra - os erros cometidos não se apagam, não se esquecem, não se perdoam. Da mesma forma, quando uma relação termina, não há vencedores ou vencidos, não há glória ou qualquer honra a conquistar - apenas a sensação vazia de se escolher ou de se submeter a um caminho que invariavelmente nos arrasta à quinta esfera do inferno de Dante. Todos os ganhos que a visão irada nos mostram são evanescentes, quando não ilusórios - quando se ama de verdade, evidentemente.
Na tempestade do pós-guerra, o pior de tudo é o olhar. Fere mais do que as palavras precisamente porque nada diz. Mas mostra tudo - a admiração pela nova pessoa que nos substitui com inacreditável rapidez, o ódio pela nossa decisão magoada ou desesperada, o desejo de um regresso aos tempos de sonho que no momento presente parecem tão distantes no tempo. É a derradeira arma, que não mata, mas confunde, prende, atormenta. Ainda hoje, se queres que te diga, não o consigo compreender. Somente sei que atordoa os meus sentidos e que turva a minha mente ao ponto de não me deixar ver coisa nenhuma. Mas não me mostra nada - ou talvez seja eu que não consigo (ou quero) ver claramente aquilo que eles verdadeiramente me querem mostrar.
Há apenas uma coisa que posso dizer, longe dos lugares comuns do tempo curar tudo e quejandos. O pós-guerra (pós-amor) supera-se afastando não o olhar da pessoa perdida, mas os pensamentos de vingança para com ela. Pode até a vingança ser um prato que se serve frio - mas desde quando é agradável comer algo frio? Na guerra, a vitória não favorece nem os justos nem os malditos - mas os preparados. E preparados estarão aqueles que se assumem sem complexos. Que assumem os sentimentos, as angústias, as desilusões, os sonhos.
June 04, 2005
Visions
[Visions]
Isto era o que Evaila via.
Um vasto céu de cores amenas em aurora radiante e permanente. Não havia sol, nem qualquer outra estrela que lhe desse a luz; era como se a sua luminosidade fosse natural, como se emanasse directamente do vazio. Formações de nuvens que pareciam algodão cruzavam vagarosas a manhã gloriosa, movidas por uma suave brisa fresca que lhe fazia ondular os cabelos negros. Abaixo dos seus pés descalços, o mar infinito fluía e refluía constante, sem ruído; um vasto espelho azul acima do qual pairavam as verdes ilhas voadoras onde, em tempos idos, Nifrithe mandara erguer os seus palácios de altas paredes de alabastro, com imensas torres de marfim e portas esculpidas em ouro. Imensos vitrais de mil cores reflectiam a luz da manhã como cristais, projectando pelas superfícies reluzentes dos templos arco-íris de todas as cores possíveis. Um mundo de pureza, de paz, onde o mal jamais poderia ser concebido.
Isto era o que Narayan via.
Um céu tempestuoso de negras nuvens ameaçadoras, por entre as quais espreitava a eterna Lua de Sangue, que iluminava a noite eterna com a sua rubra radiância. Aqui e ali relâmpagos arroxeados cruzavam os céus em revolução e os trovões distantes ecoavam ameaçadores. Um vento furioso soprava inconstante de Leste, dos longos vales desolados. À sua volta, os palácios e templos de obsidiana polida, um espelho de breu da noite sem fim. Ao centro da praça da mesma rocha negra, erguia-se uma imensa torre de obsidiana, esculpida com caracteres de línguas há muito perdidas; a suprema obra de Nitramneadh, que à torre e à lua vermelha deu a sua própria maldição. Um mundo de sombras, de corrupção, de ódio, onde o bem jamais poderia ser concebido.
(the chronicles of the underworld)
May 28, 2005
(a silent disappointment)
(a silent disappointment)
Amizade significa tudo e nada. É nada de concreto, de tangível, como não poderia ser o laço invisível que une dois indivíduos de natureza tão distinta através das distorções de espaço e tempo. Significa tudo quando existe, verdadeira, cristalina como a nascente de um rio por entre fragas de granito. Significa troca, reciprocidade, sem no entanto implicar compromisso formal e absoluto. Significa dedicação sem expectativa. Não esperava que me desses algo em troca, sequer que me agradecesses. Esperava apenas compreendesses porque o fiz. Abdiquei de algo que gostava por alguém de quem gostava (de quem gosto) - mas que é isto para além de amizade? Não o compreendeste, porém, e sei que apenas o aceitaste porque nenhuma escolha se te impôs - era aquele caminho e só aquele. Não havia, como provavelmente nunca houve, segundas intenções de qualquer espécie - era somente amizade. Sei que nada mais para além da pura amizade será possível. Não sentimos o click que faz os corações apaixonados baterem mais forte - infelizmente, diria eu. Diria. Não o sei mais. Desiludi-me. Não o sabes, nem o saberás, porque nunca to direi, e porque não lês as minhas palavras. Dir-te-ia que tudo com o tempo passa. O que é efectivamente verdade - a verdadeira amizade resiste às mais violentas guerras, e se não resistir, é porque afinal já trazia no seu seio a semente da corrupção. Isto passa. Mas por agora, não o consigo evitar.
Amizade significa tudo e nada. É nada de concreto, de tangível, como não poderia ser o laço invisível que une dois indivíduos de natureza tão distinta através das distorções de espaço e tempo. Significa tudo quando existe, verdadeira, cristalina como a nascente de um rio por entre fragas de granito. Significa troca, reciprocidade, sem no entanto implicar compromisso formal e absoluto. Significa dedicação sem expectativa. Não esperava que me desses algo em troca, sequer que me agradecesses. Esperava apenas compreendesses porque o fiz. Abdiquei de algo que gostava por alguém de quem gostava (de quem gosto) - mas que é isto para além de amizade? Não o compreendeste, porém, e sei que apenas o aceitaste porque nenhuma escolha se te impôs - era aquele caminho e só aquele. Não havia, como provavelmente nunca houve, segundas intenções de qualquer espécie - era somente amizade. Sei que nada mais para além da pura amizade será possível. Não sentimos o click que faz os corações apaixonados baterem mais forte - infelizmente, diria eu. Diria. Não o sei mais. Desiludi-me. Não o sabes, nem o saberás, porque nunca to direi, e porque não lês as minhas palavras. Dir-te-ia que tudo com o tempo passa. O que é efectivamente verdade - a verdadeira amizade resiste às mais violentas guerras, e se não resistir, é porque afinal já trazia no seu seio a semente da corrupção. Isto passa. Mas por agora, não o consigo evitar.
"Do not walk behind me, I may not lead. Do not walk ahead of me, I may not follow. Just walk beside me and be my friend."
May 27, 2005
É verdade que nem sempre são os outros que mudam; na verdade, creio até que raras vezes tal sucede, e quando sucede, é por algo extraordinário, imprevisível, que abala todo um mundo desde os seus mais profundos alicerces. A vida é um jogo de ilusões, e existir significa entrar e sair desse jogo muitas mais vezes do que aquelas que conseguimos perceber. Acontece que nem sempre aquilo que vemos é real, pois que nem nós mesmos o somos absolutamente. Ou não sonhamos, imaginamos, devaneamos incessantemente? Por vezes os nossos mais profundos desejos - aqueles que se ligam ao Amor, fundamentalmente - passam do campo do sonho e mergulham no mundo ao qual convencionámos chamar de realidade. E isso faz necessariamente com que vejamos essa realidade com uns óculos de ilusão na fronte. Vemos coisas onde elas não existem, enquanto que a evidência de outras se nos escapa ingenuamente. Entendemos os outros, que nos estão próximos e distantes, de forma diferente, julgando, para o bem e para o mal, que eles são quem nós pensamos (desejamos) que eles são, e não quem eles são de facto. E assim vivemos, e assim nos iludimos. Ad infinitum. E que substitui o vazio de a pessoa que amamos - sim, que amamos - não ser como sempre a vimos, no momento fatal em que os óculos se partem e o sol da intensa tarde nos faz doer a vista? De todo o imenso amor que dentro de nós brotou ser vazio, inútil, uma amálgama pura que num segundo se corrompe e faz doer o coração? Não existe mais quem julgámos amar. Nunca existiu. Foi uma criação nossa, pura e simples; e quem nós vemos não mais será do que uma concha vazia que outrora foi a manifestação física, a personificação de toda a pureza evanescente de sentimento que dentro de nós nasceu de forma inconsciente e infantil. E assim morre um bocadinho de nós, a cada vez que vemos a realidade, a cada vez que damos com aquele rosto que em tempos idos nos pareceu o de um serafim celestial que deixou os céus por nós e que agora não mais é do que uma triste recordação, por muito feliz que a ilusão vivida possa ter aparentado ser. É a nossa sina eterna, que incorporamos não os pecados, mas o castigo de Sisífo. A nossa pedra acaba sempre por rolar até ao fundo.
May 26, 2005
[Moment's Song #08: Estranged, Ambeon]
[Moment's Song #08: Estranged, Ambeon]
Acordei a pensar que a música mais adequada para hoje seria My Immortal, dos Evanescence. Não deixou de ser, mas creio esta opção que poucos conhecem igualmente apropriada.
Acordei a pensar que a música mais adequada para hoje seria My Immortal, dos Evanescence. Não deixou de ser, mas creio esta opção que poucos conhecem igualmente apropriada.
(for today is a sad day, and nothing more) |
May 21, 2005
Far, far away
Longe, tão longe...
(inspirado num poema da querida Blueshell)
Voltarás para mim?
Por tanto tempo repeti eu esta pergunta... às ondas do mar que soam ao longe, às estrelas do céu que brilham sobre mim, à brisa suave que passa e embala a terra... e para quê? Horas esquecidas, lágrimas perdidas, tudo por um sonho evanescente que, como a folha da árvore que perdeu a alegria do seu verde primaveril, caiu numa manhã de Outono para não mais se erguer e gritar ao mundo: amo-te!
A noite caiu, nela não brilham estrelas. A Lua escondeu-se em eclipse sem fim. O mar agita-se em revolução silenciosa. A brisa fresca que me embalava em devaneio sossegou numa calma tumular. Não vejo, não ouço. Não sinto. Não te sinto.
Não repito mais a pergunta, nem para mim. A minha voz está rouca de gritar ao vazio. Os meus olhos, secos como a terra árida que me acolhe num sono instável. Nada muda. Já não me ouves...
May 18, 2005
Through the Gates of Hell IX - Thoughts in Chaos
[Through the Gates of Hell IX - Thoughts in Chaos]
"Nada disto faz sentido", digo, confiante, fitando-a a ela e não ao demónio que me ameaçara com as suas palavras cavernosas. "Eu aqui, de espada na mão, a preparar-me para uma luta. Ela não me pertence. Ele", aponto para o demónio com o olhar, "não me pertence. Não é o meu demónio, mas o teu. Não é a mim que cabe lutar contra ele."
Recolho a minha espada e aspiro profundamente o ar fétido das portas do Inferno, como se fosse o ar puro das manhãs cristalinas que recordo. "Deixaste este mundo cair, meu anjo, e quando disso me apercebi, já a chuva de fogo que alastrara nos céus azuis devastava a terra que nos recebera. O Inferno instalou-se no Paraíso, e tu nada fizeste para o combater. Esperaste. Simplesmente esperaste. Que eu acordasse do meu pesadelo para a amarga realidade, que eu me erguesse como outrora e combatesse todos os teus demónios por ti. Não posso. Nem o mais bravo dos guerreiros pode desafiar os demónios de outrém. Se permites a sua presença ao teu lado, não serei eu que não o permitirei. E tu, demónio", digo, fitando-o pela primeira vez, "sabe-lo tão bem quanto eu. Sabes que me não podes impedir. Sabes que me não podes matar. Sabes que as portas que atrás de ti são minhas e que a minha passagem não poderás barrar."
Sorrio, se bem que o sorriso seja amargo como poucos que experimentei. Ignoro-a e ao demónio, encaminho-me na direcção do portal que deste Inferno conduz a parte incerta.
"Então é assim?", pergunta ela, sem para mim se virar, com uma tristeza infinita na voz que a dureza das suas palavras não consegue ocultar. "Partes solitário em direcção ao vazio, sem como nem porquê, e deixas-me sozinha neste inferno que ambos criámos..? Soltas a minha alma aos demónios sem a ajudares a acordar deste pesadelo?"
"Alguém disse em tempos que apenas poderia mostrar a porta", respondo, voltando-me para ela e para o demónio mudo. Com um gesto aponto para a porta. "Ei-la. Eu só te posso mostrar a porta. Tu é que tens de a atravessar; não o posso fazer por ti. Se o demónio fosse meu, desancá-lo-ia até que um de nós perecesse,não duvides. Mas é teu. Não podes esperar que faça aquilo que tu tens de fazer. Se preferes assim... quem serei eu para me erguer contra a tua vontade?"
"A minha vontade é que lutes por mim!", grita ela, já com lágrimas a escorrer-lhe pela face.
Sinto os meus olhos encherem-se também de lágrimas, mas contenho-me. Já dei parte de fraco vezes de mais; chegou a altura de não abdicar de mim. "Jamais te pediria que lutasses por mim. Mas contaria sempre que lutasses comigo. E tu... tu entregaste-te a ele. Acolheste este inferno como teu mundo. Pois eu não. Não me peças que fique aqui, pois que ele não é meu. Não mais."
Volto definitivamente as costas e caminho decidido para os portões dos infernos, procurando alguma lufada de ar fresco que alivie a minha mente do peso magoado que carrega.
May 10, 2005
Outros mundos existem para além da esfera de sensações físicas onde caminhamos oblívios ou à realidade paralela que a mente de cada um de nós projecta nessa tela material. Tenho andado algo longe deste espaço por isso mesmo - perco-me noutro mundo que sem querer ficou ao meu alcance. Creio estar de volta. Talvez não com a regularidade usual, provavelmente a um ritmo um pouco mais espaçado. Mas longe estão os devaneios da minha imaginação de serem constantes, regulares, previsíveis e, acima de tudo, materializáveis neste puro artifício que são as palavras.
[dream denial]
Julguei encontrar-me - encontrar-te - mas continuo perdido. Olho em volta por vezes e sinto-me submerso. E sabes bem como estar submerso me aflige e confunde os meus sentidos. É um receio, uma pulsão incontrolável de algo que desconheço. Aspiro ao infinito, mas temo perder-me nele. Não sei o que sinto. Existe em mim uma amálgama de sentimentos que se opõem furiosamente como se num qualquer campo de batalha inexistente guerreassem ininterruptamente. Não é ódio; receio que se seja amor. Em luta desesperada contra a vontade que ingenuamente julguei tê-lo derrotado há muito tempo atrás. Pois que ingénuo eu sou, por acreditar em mim mesmo.
Fixo as palavras que de ti os meus sentidos recebem e que ousam avançar na tempestade da minha consciência. Leio nelas algo, mas não consigo acreditar. Talvez não queira. Talvez tenha medo. Mas de quê? De ti? Torno-me subitamente num poço de contradições, e toda a filosofia que acerrimamente defendo cai por terra na batida de um coração contrariado. Porque me contrario eu a mim mesmo? A negação é a mais previsível das reacções humanas. Mas se assim o é, porque não fui eu capaz de a prever? Anular?
Sempre defendi a vida enquanto luta. Luta futura, que o passado comporta em si a sua definição. Passou. Ficou para trás. Não posso simplesmente justificar acções presentes à luz de experiências passadas, porque as situações, por muito semelhantes que pareçam, não o são. Tudo muda, minuto a minuto. Ter o passado como guia não pode derivar para ter o passado como mestre. E na luta desesperada para que ele não se repita, os mesmos erros infantis acabam por ser cometidos, as mesmas memórias turvas ofuscam a luz do momento. Estou em guerra, em guerra declarada. Fratricida, mortal.
Desculpa. Não posso lutar por ti - ou contra ti - enquanto não me derrotar a mim mesmo. E não sei se algum dia serei capaz de o fazer sozinho.
May 01, 2005
(...) Não sei onde tudo isto começou. A releitura do tardio acordar, a divagação inconstante a que a mente se devota sem como ou porquê. Sinto hoje que pela primeira vez desde o dia fatídico abri os olhos e vi toda a verdade que se esconde por detrás das mais insignificantes palavras, dos mais pequenos gestos. A verdade simples, pura como um cristal.
Recordo-me de por uma ocasião ter chamado a alguém "criadora de mundos e de utopias", cargo que ela, incendiada no seu espírito rebelde, recusou de imediato. Não o percebia eu na altura como agora. Ela não é, de facto, a criadora. É uma, pois que em todo o ser humano arde a centelha da criação. Cada um de nós é em si um ser uno e indivisível, ainda que fragmentário no seu interior. E desses fragmentos unidos cada um constrói o seu próprio mundo, à sua imagem e semelhança, ainda que aparente moldar-se à forma do dito "mundo exterior", a mais pura das ficções. A realidade não existe. Eu sou a realidade, tal como tu o serás, e assim sucessivamente. Existe um sem-número de realidades, tantas quanto a quantidade de almas que sufocam nesta esfera que navega à deriva no vazio sideral.
Não foi culpa tua. Nem minha. Os mundos constroem-se de dentro para fora; e ambos construímos a nossa realidade. As nossas criações são diferentes, diametralmente diferentes. Procuras o amor no mundo terreno, o conforto material da *realidade* amplamente partilhada. Sonhas, mas o teu sonho tem um alcance. Sabes aquilo que queres e consegues divisar o caminho para lá chegar. Nem sempre podes prever os obstáculos, mas a isso se chama viver. Eu sou diferente. Tudo aquilo que os teus olhos vêem quando olhas em redor significa nada para mim. A minha criação não é daqui nem de agora; é um mundo sem lugar ou circunstância, que não existe senão em mim, no mais profundo do eu ser. Daquele que viste mas que não sentiste. E a culpa não é de ninguém. Somos diferentes, apenas. Criaste o teu mundo, tal como criei o meu. Mas eles tocam-se jamais.
Não pretendo afirmar que o meu mundo é melhor que o teu. São diferentes. Cada um procura o reflexo da sua alma. Há quem procure o reflexo exacto, definindo-se pela harmonia do equilibrio perfeito. Eu sou o conflito, a eterna angústia da não existência nos moldes autoproclamados naturais. Não encaixamos. Não há drama, apenas esta verdade. Somos incapazes de entrar no reino um do outro; para quê então tentar adaptarmo-nos, com o risco de perdermos aquilo que mais intimamente nos define. Não poderemos ser alguma vez verdadeiros com o outro se não o formos connosco mesmos...
Não sei quem és, apesar de saber aquilo que te define. Eu sou eu, a utopia fantástica da imaginação, um anjo caído nas brumas da espiral das realidades, a encarnação de carne e osso e sangue do deus da lua Nitramneadh que eu mesmo criei, e cujo nome alguém como eu que nunca conheci me emprestou. Eu sou Nitramneadh, que morreu por amor a Nifrithe e ao mundo que por esse amor conceberam. Ela partiu, nunca a vi. Um dia hei-de a ver. Sem pressas. O meu mundo não tem tempo. (...)
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