testing a new face for the old blog. tried other platforms, but no other seemed good enough.

April 10, 2005

Moment's song #07: "Hello", Evanescence

[Moment's song #07: "Hello", Evanescence]



Playground school bell rings again,
Rain clouds come to play again,
Has no one told you she's not breathing?
Hello, I'm your mind giving you someone to talk to...
Hello...


If I smile and don't believe,
Soon I know I'll wake from this dream.
Don't try to fix me, I'm not broken.
Hello, I'm the lie living for you, so you can hide.
Don't cry...


Suddenly I know I'm not sleeping...
Hello, I'm still here,
all that's left of yesterday...

(to everyone who tonight is exactly as i am. Alone. Sad. Dead..?)

(picture by Rob Alexander)

April 06, 2005

Through the Gates of Hell VII - Fallen Love

[Through the Gates of Hell VII - Fallen Love]




"Que estás tu aqui a fazer?"

As palavras, algo surpreendidas, algo frustradas, no seu tom estranhamente familiar, fazem-me parar. Detenho-me diante dos portões do Inferno que finalmente encontrei, olho nos olhos de quem as proferiu. Espanto invade todo o meu ser. Deuses, como são parecidas..! O mesmo olhar enigmático e triste, banhado em azul, o primeiro azul que neste mundo maldito vejo... mas não, não pode ser ela.

Nunca poderia ela ter-se tornado na guardiã do Inferno, numa das marionetas da morte. Nunca poderia o seu corpo alvo, esbelto e frágil envergar aquela armadura negra, ou as suas mãos delicadas segurar tamanha espada envenenada. Nunca poderia o seu sorriso de cristal tornar-se naquele esgar amargurado que vejo no seu rosto soturno.

"Estou a sair, apenas", respondo secamente, procurando que a guardiã não perceba quão familiar é a sua face aos meus olhos, ou como me lembra ela alguém que perdi no dia em que este mundo de fogo incinerou o meu paraíso... "Este não é o meu lugar... Vou partir."

"Não, não vais."

"E porque não?"

"Porque nunca tal permitirei."

O seu olhar azul endurece, enche-se de um ódio que eu nunca vira antes. Compreendo que ela fala a sério, e que pretende mesmo não me deixar passar. Levo a mão à minha própria espada, mas não a desembainho. "Que raio queres tu dizer, Guardiã? Porquê isto tudo?"

"Não podemos deixar-te partir", diz ela, com uma ponta de emoção na voz que a sua frieza não consegue disfarçar. "És demasiado importante para nós."

"Para nós?", pergunto, aproximando-me dela para a olhar nos seus olhos mais de perto. "Queres dizer para o Inferno? Ou será porventura apenas para ti, Guardiã?"

Engolindo em seco, ela desembainha a sua espada e encosta o gume afiado à minha garganta. "Não irás."

"Porquê? Não achas que já aqui estive demasiado tempo? Não achas que já sofri demasiado neste inferno? Não te passa pela cabeça aquilo por que passei até chegar aqui!"

"E tu", diz ela, quase cuspindo as palavras com fúria, "terás tu alguma ideia de como vim eu aqui parar? De como me tornei eu nisto..? Acaso terás tu alguma noção daquilo por que terei passado neste tempo todo?"

Então é mesmo ela..! Deuses, não, como pode ser? Como pode tão radiante criatura ter-se tornado neste... demónio? Ou seria esta a sua verdadeira forma, que os meos olhos cegos se recusaram a ver durante todo o tempo? Não, não posso acreditar... não pode ser...

"Que... que aconteceu?"

A sua boca abre-se como se fosse dizer algo, mas nenhum som sai por entre os seus lábios sensuais. "Não... não quero falar disso", diz, por fim, a custo. "Isto não é sobre mim, mas sobre ti."

"Seja", digo eu, decidido. "Não será então um problema meu. Agora baixa a tua espada, Guardiã. Eu vou partir, de uma forma ou de outra. Se insistires nesta insanidade, terás de me matar, o que não serviria de todo os teus sinistros interesses. Mas eu - eu estaria livre."

(continua)

(imagem por Luis Royo)

April 03, 2005

[Through the Gates of Hell VI - The Path Without a Name]

[Through the Gates of Hell VI - The Path Without a Name]



Gostava de olhar para os céus e de ver as estrelas, como dantes as via, ou a Lua... a grande Lua, a tornar o mar da cor da prata, a tornar o infinito oceano num espelho de cristal. Gostava de voltar a sentir aquele vento fresco no rosto, de sorrir à noite luminosa e senti-la como só minha. Gostava de caminhar sem rumo, sem destino, e saber que onde quer que os meus passos algo trôpegos me levassem, me iria sentir bem. Gostava de saber que este mundo era o meu lugar.

Tenho saudades. Saudades até do tempo em que me assustava com as sombras.

Aqui, no coração das trevas, não há sombras. Aqui a luz não subsiste; nem os malévolos relâmpagos têm lugar. Aqui é a eterna penumbra, a eterna incerteza. Presentes, apenas os inconstantes fantasmas que insistem em assolar o meu caminho.

Estou, uma vez mais, sozinho. Ela partiu, seguiu o seu caminho. Sonhará com o nosso reencontro? Possível, ainda que improvável. Assim é a natureza do inferno: rouba da alma as emoções para as projectar algures na penumbra. Para criar fantasmas malignos, quando a sua essência era verdadeira e pura. Não sei se a voltarei a ver. Nem sei se sonho com isso. Ainda sonho?

Quem sois vós, demónios silenciosos que me fitam com olhar malévolo das trevas do caminho? Porque permaneceis quietos e calados na penumbra, assombrando o caminho, sem me tocarem, sem me pararem? Acaso me temeis, a mim e à espada que nem por um segundo a minha mão solta? Ou apenas esperais o momento certo para a emboscada?

Entretanto o céu muda. Não sei o quê; mas de alguma forma a sua tonalidade muda. Pode ser apenas ilusão dos meus olhos cansados, ou miragem do meu desejo ardente. Mas, algures em mim, bem nas profundezas do meu ser, sinto que a cada passo no acaso deste solo duro e árido, estou mais próximo da saída deste pesadelo...

(continua)

("Dart Moor"; imagem por Rob Alexander)

March 30, 2005

[Through the Gates of Hell V - Eternal Twilight Morning]

[Through the Gates of Hell V - Eternal Twilight Morning]



Abro os olhos devagar, ao mesmo tempo que ela. Como se acordássemos juntos de um sonho, sonhado a dois. Sorri, embaraçada, suspira para o vazio, a sua mente a escapar para uma qualquer paragem longínqua.

"Isto... isto não devia ter acontecido", murmura, quase imperceptívelmente, fitando o vazio, sem retirar os braços do meu pescoço, sem se libertar do meu abraço.

"Porquê?"

"Daria qualquer coisa... qualquer coisa, apenas para te amar a ti", diz ela, num tom triste, encostanto a cabeça no meu ombro. "Mas não posso, tal como tu não podes. Não pertencemos um ao outro..."

A chuva abranda, quase imperceptivelmente, à medida que o nosso abraço, a nossa união, se desfaz. "Gostava que isto durasse para sempre", digo. "Não posso, no entanto, enganar-me a mim uma vez mais... e ainda menos a ti."

"Tudo tem o seu momento para acontecer", diz ela, voltando a olhar-me nos olhos. "O nosso encontro aqui, no meio do nada, debaixo da chuva."Que entretanto cessara completamente."O nosso momento... tinha que acontecer, senti que tinha de acontecer..."

"Ambos o sentimos", digo, sorrindo à luz que o seu olhar revela só a mim. "Por isso os nossos caminhos nos trouxeram aqui. Todavia, eles seguem rumos diferentes..." Como sempre, tudo é efémero, tudo é passageiro. A chuva fria que me consola... tu..."

"Talvez um dia possamos renascer juntos, unidos, como duas sementes de Primavera que o rigor do Inverno não logrou separar." A sua mão encontra a minha, aperta-a com força, como se fosse a última vez. "Por ora temos de seguir os nossos caminhos, empreender as nossas jornadas até onde nos levar esta perseguição de... nem sabemos bem de quê. Por ora temos de nos separar... na certeza de sempre, mesmo sempre, podermos encontrar um lugar de conforto nos nossos corações... e se um dia, numa qualquer aurora radiante, os nossos caminhos se cruzarem... que abracemos juntos o destino, e que sigamos em frente, pois que para trás... nada existe..."

(continua)

March 24, 2005

[Through the Gates of Hell IV - Forgiving Rain]

[Through the Gates of Hell IV - Forgiving Rain]




Sinto uma pesada gota de água esmagar-se no meu rosto, desfazer-se em inúmeras gotículas que caem para o solo poerento, que fazem levantar com o seu impacto a negra cinza do chão. Deuses, será possível?

Ergo os olhos para o alto, para o espesso manto de nuvens de tempestade que cobre os céus em toda a sua infinita extensão. Espero relâmpagos, o flagelo dos céus. Mas eles não vêm. Apenas uma, duas, dezenas, centenas, milhares de gotas de chuva se precipitam para o solo, se esmagam nas cinzas. Sinto as bátegas frias no meu rosto, sem querer acreditar no milagre que a minha pele seca e cansada saboreia, na dádiva impossível que os céus me concedem, quando julgava que eles há muito me tinham abandonado...

"Eles nunca nos abandonam. Deixam-nos sozinhos, por vezes, a lutar por nós mesmos no mais improvável dos campos de batalha. Mas nunca deixam de nos observar."

Abro os olhos para ver quem me interpelara. Diante de mim está uma jovem rapariga de olhos de âmbar com longos cabelos lisos, pretos, escorrendo a água da chuva que sobre nós se abate. Veste apenas uma túnica branca rasgada e uma saia desalinhada, da mesma cor, contrastando agressivamente contra o mundo negro onde nos encontramos; a água dos céus abençoa-a como a mim, cola-lhe as vestes à pele clara, faz sobressair as suas formas volumptuosas.

"Os céus", diz ela. A sua voz é doce, como o chirlear da primeira andorinha. O tom, claramente sensual. "Eles vêem sempre, eles sabem sempre."

"Quem és?", pergunto, sem tirar os meus olhos dos dela. Como um feitiço que sei que não existe, mas que de alguma forma não me importava que fosse real. Nos seus lábios desenha-se um sorriso, perante a minha pergunta.

"Alguém perdido neste mundo, como tu", responde. "Alguém que cometeu os seus erros e que paga por eles aqui. Alguém que procura... o mesmo que tu."

Um leve suspiro escapa-se por entre o sorriso dos seus rubros lábios. Aproxima-se de mim devagar, a passos curtos, até estar tão perto de mim que os seus olhos se tornam imensos, como se revelassem todo um mundo de sonhos e pesadelos por detrás do seu espelho de âmbar. "Conheço-te?", pergunto, num sussurro embalado pela chuva que cai constante, sentido algo pulsar dentro de mim, algo que me atrai insensivelmente, irresistivelmente para ela.

"Conhecemo-nos um ao outro sem sabermos verdadeiramente quem somos." O seu tom é meigo, ternurento, o seu olhar irresistível. "Sentimos algo que não sabemos explicar. Somos frutos tombados da mesma árvore de Outono... a chuva que cai dissolve as nossas amarguras, limpa a nossa pele... renasceremos nós, das fumegantes cinzas húmidas..?"

Fecho os olhos por um momento. Não os abro, quando sinto os seus lábios nos meus, húmidos pela chuva, quentes pelo desejo. Os seus braços envolvem-me num abraço, num momento evanescente em que nos beijamos, em que o fardo que carrego parece subitamente desfazer-se em poeira, em coisa nenhuma. Coloco os meus braços à sua volta, fundo o seu corpo no meu, envolvidos apenas pelas lágrimas dos céus. O tempo desaparece, perde o sentido na magia do momento.

(continua)

March 22, 2005

[Through the Gates of Hell III - Demons of the Past, Prophecies of the Future]

[Through the Gates of Hell III - Demons of the Past, Prophecies of the Future]



"Tu. Aqui."

Volto-me para trás, para a voz grave que interrompe o silêncio da planície desolada, deparo-me com ele. Com ele. Sorrio, amargamente, e nada lhe digo.

"Quem diria que te iria encontrar aqui", diz ele, caminhando devagar na minha direcção, com um sorriso enigmático desenhado nos lábios negros. Não enverga o elmo que em tempos lhe conheci, vejo-lhe o rosto pela primeira vez; e, no entanto, é como se o rosto que vejo me fosse familiar, estranhamente familiar, demasiadamente familiar. Como o rosto enigmático que tantas e tantas vezes vi reflectido no espelho... "O mundo é realmente um lugar pequeno, e a vida, um imenso mar de ironias."

"Fica onde estás", ordeno-lhe, em tom ríspido, com a mão na minha espada mas sem a desembainhar. "Já te derrotei uma vez, demónio, lembras-te? Posso fazê-lo outra vez."

"Podes, evidentemente". O cavaleiro negro ri-se com desdém, após a breve divagação que o seu olhar faz até ao passado, até àquela fatídica noite. "No entanto, e apesar de desta vez não ter o meu dragão, seria bom que te lembrasses de que estás agora no Inferno - este é o meu mundo."

"Errado. Este é o meu mundo. Apenas foi... consumido. Pelo teu." As palavras custam a sair, como custa a aceitar a derrota que foi a perda de todo este mundo. O paladino das trevas ri-se.

"É a mesma coisa."

"Não importa", respondo-lhe. "Que queres tu? Lutar? Seja, então. Terei menos piedade desta vez. Afinal, nada aqui há a perder, não é?"

"Não vim para lutar", apressa-se o cavaleiro negro, quando começo a desembainhar a espada. "Já não me interessa derrotar-te, pois que derrotado já estás. Não desceste aos infernos comigo, mas os infernos subiram até ti. Vim até aqui para falar-te."

Olho para ele - para mim - de forma desconfiada. "Que poderias ter tu para me dizer, maldito, que me pudesse interessar?"

"Estás à procura do caminho, não é?", pergunta-me ele, subitamente sério. "Das portas do Inferno? Não vim para me intrometer. Apenas para te dizer que tenhas cuidado."

"E desde quando te preocupas tu comigo?"

"Não me preocupo. Apenas me quero divertir. E vou-me divertir, quando a encontrares."

"Quando a encontrar?", interrogo-me. O cavaleiro negro ri-se, dá meia volta e começa a caminhar para longe. "Quando encontrar quem? Quem é ela?"

O paladino susteve-se e olhou para mim pela última vez, antes de desaparecer nas trevas. "Tu verás. Apenas tem cuidado quando a vires. E quando isso acontecer, vais ver que este lugar tem mais que ver contigo do que aquilo que alguma vez imaginaste."

(continua)

March 17, 2005

Through the Gates of Hell II - The Wake

(pequena nota de explicação: os evidentes problemas gráficos deste blog devem-se a erros do site que fornece o template. Sei que isto não está esteticamente agradável - é o meu lado negro literal. Mas vou dedicar parte das minhas férias a tentar criar eu mesmo um template, muito futurista, muito sci-fi, muito sombrio, muito... igual a mim. Até lá, no entanto, irei mantendo a água a correr, que é como quem diz, irei actualizando o espaço com as passagens deste novo conto que me surgiu há dias. A todos, espero que gostem... e obrigado pela atenção)

[Through the Gates of Hell II - The Wake]



Olho em volta, apenas vejo uma vasta planície desolada, escaldante. Nada daquilo que foi este mundo é mais. O dia do Apocalipse chegou, o Inferno emergiu das profundezas ardentes para destruir a felicidade que julguei inescapável. Separou-me de tudo aquilo que amava, tornou-me num anjo caído, arremessou-me para o fundo. E deixou-me contemplar toda a queda de um mundo.

Não há mais nada aqui. Apenas dor, sofrimento, fantasmas de um tempo que não volta. Vejo-os a vaguear sem rumo, sem destino, de olhar vítreo fitando o vazio. Pergunto-me se não serei também eu um deles... e não consigo dar resposta a isso. Fecho os olhos, angustiado, procuro em vão aocrdar deste pesadelo horrível.

Mas não é. É real, bem real, demasiado real. O calor sufocante queima-me por dentro cada vez que inspiro o ar fétido desta atmosfera. Não consigo ver nada, apenas sentir, sentir. Por momentos sou invadido pelo impulso de deixar-me consumir pela destruição, de atirar o meu corpo para a boca de um qualquer vulcão que irrompe livremente pelo solo, de me tornar cinza num mundo que é só cinzas. Mas não tenho coragem.

E algo dentro de mim, não sei bem onde ou como, sente-se aliviado pela minha covardia.

Atrevo-me a abrir os olhos novamente. Continua tudo na mesma. Estou vivo. No meio da morte, entre estátuas de anjos esquecidos. Mas, da mesma forma que em tempos tão distantes que a memória quase não os consegue evocar consegui encontrar o meu caminho para o paraíso com o qual sempre sonhara, conseguirei agora encontrar o meu caminho para fora dos Infernos. Seguro firme na minha espada, que tantos demónios já combateu no passado. Que a minha guerra contra um mundo comece, aqui e agora.

(continua)

Through the Gates of Hell I - Ashes to Ashes, Dust to Dust

[Through the Gates of Hell I - Ashes to Ashes, Dust to Dust]




Ainda me lembro do dia em que do céu choveu fogo.

Era uma manhã amena de fim de Verão, cheia de luz e cor. O azul profundo do céu fundia-se no horizonte com o azul infinito do mar no horizonte, como se ambos fossem na verdade um só. Do vasto oceano soprava uma brisa fresca, cheia de vida, que balouçava as verdes folhas nas árvores e que me acariciava o rosto. Podia ouvir as ondas, na distância, a rebentarem regulares contra os rochedos das escarpas... mais perto de mim, o chilrear alegre dos pássaros que, como eu, tinham acordado cedo para saborear uma aurora radiante.

Mas, mais cedo ou mais tarde, todos acordamos dos nossos sonhos... e um mundo de sonho como aquele que era o meu não poderia durar para sempre.

Eis que de súbito todo o azul do céu se revolveu, furioso, vomitando sobre a terra verdejante fragmentos ardentes de estrelas. Grossas nuvens pretas cobriram o sol matinal, escureceram a terra e o mar, rebentaram em mil relâmpagos fulgurantes e violentos. A fresca brisa cresceu, aqueceu, tomou proporções de furacão, incinerou a vida à sua passagem impetuosa. Detritos de estrelas continuaram a cair sem cessar, dezenas, centenas, milhares, furando a espessa camada de nuvens, desafiando os relâmpagos, explodindo com estrondo contra o solo, devastando tudo em seu redor.

Num momento imperceptível, numa batida de coração, todo este paraíso bucólico se tornou num ardente inferno. No Inferno. Chegou sem aviso, o submundo maldito, consumiu a minha vida de um trago. Mas não me destruiu, como a tudo o resto. Deixou-me viver no meu mundo devastado, como um rei sem coroa, destronado e perdido, sozinho num mundo de fogo e trevas.

(continua)
(imagem por Mike Hanson)

March 15, 2005

[now . . . .]

[now...]





. . . . that words are silent, turned meaningless as they crashed on the utter wall of unspoken truths . . . .

. . . . that an absolute darkness have come at last, obliterating the illusion of light that confused my senses . . . .

. . . . that dreams faded in the void of some nothing place . . . .

. . . . that my mind have passed judgement over the reckless rebellion of my feelings . . . .

. . . . that the swift hand of oblivion swept away the tears of my memory's eyes . . . .

Now that everything's dead, buried and ready to reborn once more, I've been finally set free . . . .

(imagem por Luis Royo)

March 11, 2005

[black and white]

[black and white - the mirror of the nothing place]


tic... tac...

Algo que se mova no vazio de forma incrivelmente rápida parece aos olhos do observador estar parado.Não estou no vazio, sequer me movo, aliás; mas os ponteiros do relógio de luto, única decoração da vasta parede branca, há muito que parecem não se mover. Há muito que perderam o sentido.

tic... tac...

A luz esconde trevas nas sombras, projectando-as quando encontra obstáculo em relevo. Não há sombras, aqui. Ou luz. Ou formas em relevo. Há nada, que é tudo. Há vida, que há muito morreu. Há morte, que teimosamente renasceu.

tic... tac...

O eco reverberante dos ponteiros estáticos flutua no vazio em ondas regulares, marca o compasso mórbido deste lugar inerte, desta prisão invisível que não posso sentir. Ah, saudades dos dias em que te senti entre os dedos, traiçoeira lâmina..!

tic... tac...

No eco esconde-se uma vida, desvanecida, perdida, quase esquecida. Pequenas notas graves e agudas de lamentos magoados, de risos de alegria, de gargalhadas divertidas, de suspiros apaixonados velam-se no som do pêndulo secreto, invadem a minha mente fragmentada, estilhaçada, irrompem numa míriade de imagens no vazio da minha memória.

tic... tac...

A tua silhueta sensual surge diante os meus olhos fechados, envolta num halo de luz difusa. Não estás aqui, sei-o bem. Não mais. Ainda assim posso ver-te a caminhar para mim ao ritmo do relógio sem tempo. Como uma miragem.

tic... tac...

Sinto-te no eco que o vazio grita. Sinto ainda a pulsação quente do teu peito junto do meu, o aroma suave do teu perfume no ar que aqui não existe. Sinto ainda a dor da queda, as feridas abertas, as cordas de raiva imobilizando os meus pulsos e afastando-me inexoravelmente de ti. Sinto tudo isto indistintamente, insensivelmente, enquanto grossas lágrimas de sangue escorrem dos meus olhos eternamente secos e áridos.

tic... tac...

Qual a diferença entre amor e ódio..?

March 06, 2005

[Moment's Song 05: "It Can't Rain All The Time", Jane Siberry]

[Moment's Song 05: "It Can't Rain All The Time", Jane Siberry]

Descobri esta música ontem à noite, enquanto revia (ou talvez enquanto verdadeiramente via) um dos filmes da minha vida: The Crow. Há algum tempo que uma música não me dizia tanto como esta. Deixo-vos a letra, que é fantástica.


We walked the narrow path, beneath the smoking skies.
Sometimes you can barely tell the difference between darkness and light.
Do we have faith in what we believe?
The truest test is when we cannot, when we cannot see.
In the streets below, and the,
And the women cry and the,
And the children know that there,
That there's something wrong,
And it's hard to believe that
Love will prevail.

Oh it won't rain all the time.
The sky won't fall forever.
And though the night seems long,
Your tears won't fall forever.

Oh, when I'm lonely, I lie awake at night and I wish you were here.
I miss you. Can you tell me is there something more to believe in?
Or is this all there is?

In the pounding feet, in the,
In the streets below, and the,
And the window breaks and,
And a woman falls, there's,
There's something wrong, it's,
It's so hard to believe that love will prevail.

Oh it won't rain all the time.
The sky won't fall forever.
And though the night seems long,
Your tears won't fall, your tears won't fall, your tears won't fall
Forever.

Last night I had a dream.
You came into my room, you took me into your arms.
Whispering and kissing me, and telling me to still believe.
Within the emptiness of the burning cities against which we save our darkest
Selves...

Until I felt safe and warm.
I fell asleep in your arms.
When I awoke I cried again for you were gone.
Oh, can you hear me?

It won't rain all the time.
The sky won't fall forever.
And though the night seems long,
Your tears won't fall forever.

It won't rain all the time.
The sky won't fall forever.
And though the night seems long,
Your tears won't fall, your tears won't fall, your tears won't fall
Forever...



E porque ambos estamos a precisar de "levantar" um bocadinho o nosso astral... Waxing Crescent, este post é para ti. Afinal, não pode chover o tempo todo...*

March 01, 2005

[the return from hell]

[the return from hell]


In that night, black storm clouds covered the starlit sky I used to worship.

In that night, furious lightning bolts traversed the sky and scorched the dephts of my own with their blistering light, as ravenous thunders bursted in my ears and shoke my restless soul.

In that night, rain was not cold as it should be, and it burned my naked skin.

"In that night, for the very first time in my life, I wished to die.

And I died.

I didn't scream, I didn't cry, I didn't even mutter, for no one was there to hear me (no one ever is). I just sat in the dark, alone and cold, with the razor in my fingers. I didn't cut my fists, but my soul has been ripped apart. I didn't shed my own blood, but I felt it leaving my body, soaking my hands, flooding the ground around me. My heart never stopped beating, but I've never felt its beat again since then.

I have no scars in my fists. Still I can see them all the time, burning in red hot, reminding me every waking moment that my world fell down, and I killed myself in the fall. I can still walk, breathe and see. Though my path is gone, the air isn't cool and fresh, and I am surrounded by darkness.

I wander without a destiny, without a goal, without a reason. I don't remember my past, I don't dream with my future. I don't live my present. I feel the morning sun warming my pale skin, but my soul is as frozen as ice. The world is oblivious to my sorrow as I am oblivious to its existence.

I returned from hell in that bleak night. But my soul remained down there, burning for the eternity...

(imagem de Leonid Kozienko, "The Last Warrior")

February 26, 2005

[Reflexão filosófica I]

[Reflexão filosófica I]

Acredito na coincidência quando um acontecimento ocorre, aparentemente, por acaso, de forma manifestamente imprevisível às partes que nele convergem e, assim, o constituem. Passo a acreditar em determinismo e em relações de causa e efeito quando o mesmo acontecimento se repete da mesma forma.

February 23, 2005

[farewell to you]

[farewell to you]

Escrevi este texto há quase um ano. Foi publicado no primeiro mundo do meu 'lado negro', numa altura complicada, a pensar numa situação. Muda o tempo, mudam os lugares, mudam as personagens, talvez - eu próprio mudei desde então, na voragem do caminho. Mas as palavras permanecem verdadeiras, actuais, talvez mais hoje do que há um ano. Hoje não estou nostálgico. Estou, acima de tudo, triste.


"I remember when I first saw you. Can't explain why, but there was something in you that caught my attention in that moment, though I'd never seen you before. This happens sometimes, during our every-day life... Usually, it's just a sudden pulse confusing us for no longer than a mere second... when we notice, it is already gone, as fast as it came..."

"Things were different with you. It lasted for more than a second. As a seed thrown to the soil that suddenly founds everything it needs to grow, the little seed you left in me without knowing created roots and started to grow. Each day it became a little bigger, a little stronger, a little more beautiful than before."

"The little seed grew and became a great tree. Then was when I realized what was going on. Then I understood what the seed you left inside me was. It was love. A pure love that overtook my whole being without warning. It didn't knocked on my door; it bursted through the room, invading my space and stayin' uninvited."

"It was a surprise for me. I didn't believe anymore that I could feel that way again. The last time was too much painful; it left so many wounds... wounds that time was not healing completely... but you did..."

"Love brings expectation. This is inevitable. As I am not an exception, I started to dream. I dreamed with you in my eyes. I dreamed with you in my arms..."

"But dreams are always wrong... They can never be true because we awake. I woke from my dream and saw the reality, a reality I didn't want to face, but that couldn't be avoided for much longer: though she left the seed in me, she didn't get one of my own seeds... No matter how much I loved you, you would never feel the same for me. You would never love me..."

"Took a while to wake from my dream. And when I did, I felt myself invaded by such a great pain, such a dark sorrow, such a deep woe... It was the greatest fall, the fall into a deep and suffocating darkness... a darkness where I still remain sunken..."

"What to do now? Shall I keep fighting for something utterly and totally impossible to reach? No. No longer. Neither shall I stay in darkness, though I am a fallen angel. A fallen angel that knows you are a dream too high, and still he loves you so much, so damn much... but no longer can I stay here. This is not my place. You will never be mine... Time has come for me to go away, time has come for me to rise..."

"So I say goodbye. I know this is a hard path to walk, but there are some things that must be done. Leave you with a tear in my eyes and a wound in my heart, a wound so deep, so painful... Leave you loving you more than I ever did before, and knowing in sorrow you won't miss me, because you never noticed I was there..."

"Farewell..."

(imagem de Leonid Kozienko)

February 21, 2005

[the choice is freedom or death]

[the choice is freedom or death]



Porque hesito eu, parado no meio do nada, a olhar para dois caminhos que sei que não me vão levar a lugar nenhum..?

Porque espero eu que faças algo que mude o meu rumo, quando o teu olhar grita por outro que não eu..?

Porque penso eu em seguir em frente pela densa vegetação, quando a fria brisa da manhã que me afaga o rosto me sussurra ao ouvido que não existe para lá da floresta nada para mim..?

Mataste as minhas expectativas, derrubaste as minhas ilusões. Mostraste-me a verdade que não queria ver. Nada disto faz mais sentido. Porque demorei tanto tempo a perceber algo tão óbvio?

Já não sou paladino... deixei de o ser há muito tempo, para me tornar num caminhante sem rumo. Mas ainda me recordo... ainda sei como voar... e tenho saudades da liberdade dos céus de azul eterno, onde o sol quente ilumina e reconforta...

Se tenho medo de cair..? Terei se olhar para a prisão da terra, nem pensarei nisso se apenas contemplar o azul infinito que desejo. Que as asas de cera derretam como as de Ícaro, se assim tiver de ser...

February 16, 2005

[crossroads]

[crossroads]


Chego ao final deste caminho. Talvez não seja bem o seu final, mas um novo início. Ele não termina neste ponto. Parte-se em dois, bifurca-se para a esquerda e para a direita. Aqui, no mei do nada, num qualquer lugar perdido desta floresta desolada como o mundo.

É quase como ter uma vez mais os comprimidos vermelho e azul à minha frente. Uma escolha, impossível de evitar. Voltar para trás não é opção. E nem sempre esperar o pode ser.

Olho alternadamente para ambos os lados. Há algo que insensivel e irresistivelmente me atrai no caminho da esquerda. Não sei bem o que é; mas sinto o meu coração bater mais forte sempre que os meus olhos contemplam a sombria e silenciosa estrada sem fim que se abre à minha esquerda. O caminho da direita parece-me familiar. Há algo nele que apela à minha nostalgia, a algo aparentemente escondido na minha memória. Se o da esquerda, no entanto, está envolto em sombras, o da direita está envolto em névoas espectrais, velado por um enigmático manto de pálido mistério.

Apetece-me bradar aos céus as palavras proibidas que me trespassam a alma e correr desvairadamente pela esquerda. Se o não fizer, porém, para a neblina da direita não caminharei, que planos de recurso devem jamais ser aplicados às emoções humanas... se assim for, às cegas avançarei em frente, caminharei por entre as árvores para o vazio, desbravarei o meu caminho à força, se for preciso, por entre a floresta do nada. Até que a minha jornada suicida em mostre um novo caminho.

("crossroads", fotografia por Catherine Ames)

[Nota: este post nada tem que ver com política. Sei que quem já conhece a "linha editorial" deste blog não fará a confusão (as minhas políticas têm outro espaço). De qualquer maneira, e just in case...]

February 14, 2005

[burned by the sun, healed by the moon]

[burned by the sun, healed by the moon]

What matters everything else? The moonlight bursted through the dense storm, blessing with its pale radiance this long dead world... She healed my wounds and whispered in my hear that you'd come back... for me...

("wanna be my valentine..?")

February 11, 2005

[oblivious to everything but to you]

[oblivious to everything but to you]


I don't know where did you come from. I don't know how did you find me here, in the very middle of nowhere, in this god-forsaken battlefield. Where I had been left to die alone, long ago. Where I lost my soul and turned to a shadow, doomed to dwell in the past, surrounded by darkness and sorrow. Where lay the bodies of my fallen army, scorched by the same radiant light I worshiped for so long.

This world fell long ago. I borne witness to the oblivion of it all. I saw wildfires burning greener prairies, eartquakes sundering snow-covered mountains, tidal waves shaking the boiling oceans, firestorms scorching the sky above my empty eyes. I died. Alone. This world became nothing but a wide and desolated wasteland.

Still you found me. I couldn't believe when I saw light making its way through the black storm clouds. When I saw you wandering alone in the once green shores where my army met the grim reaper. When you descended from heaven and entered this lost hell for me, just for me.

My hope was lost long ago. I still don't know if you and everything that happen were indeed real, or just another mirage, another dellusion. I still don't know if this I feel is true and pure as it seems. You were gone as you should be; I feel you with me, though I don't know if I will ever see you again. But I'd give anything - anything - to be given the opportunity to dream again... to feel your warm lips on my own... once more...

("braveheart"; picture by Leonid Kozienko)

February 09, 2005

[fogo]

[fogo]


Fogo irrompe, subitamente, sem aviso, pela verde floresta, consumindo vegetação rasteira, devastando a flora à sua violenta passagem, impelido por um vento malévolo, enganadoramente frio. Espirais de fumo ascendem aos céus, transformando o azul cristalino de uma manhã de Verão nas cinzas de um mundo a ser destruído, não pelo fogo ateado, mas pelas intenções flamejantes de quem o provoca. O Sol, o próprio Sol, do mais escaldante fogo feito, sucumbe às cinzas da alvorada, esconde-se num disco rubro que não mais brilha.

Relâmpago violento das nuvens cuspido com fulgor e violência que transforma a noite em dia num segundo evanescente que parece uma eternidade aos nossos olhos e que contra o solo explode com inaudita feracidade, explosão ardente da boca de algum vulcão adormecido que se lembra de acordar e fazer a terra tremer, seja com o seu bocejo sonolento ou com o seu mau humor ao despertar, nem sempre o fogo, este fogo que contemplo, incandescente, na ponta do cigarro que lentamente arde na solidão desta noite, deste terraço com vista para a cidade dormente a esta hora tardia, significa destruição, ou jamais teria Fénix renascido das cinzas em chamas fulgurantes e ascendido aos céus.


Não sendo necessariamente o fim, é igualmente, num paradoxo perfeito que nunca se anula, o início do acto de criação. A própria terra renasce, verde e viçosa, à passagem das chamas que no segundo anterior as despojam de toda a vida. Ilhas crescem ao sabor das erupções cujas lavas ardentes roubam espaço ao mar infinito. A mais violenta tempestade acalma-se, dispersa-se após libertar o inicial impulso furioso, e dá lugar ao dia brilhante que o Sol permite. E que é o Sol senão o astro da vida, a luz que permite a existência de tudo quanto se conhece neste mundo que à volta da sua esfera de fogo orbita inexoravelmente..?

Símbolo da vitória e da persistência que não se apaga jamais, da fé que junto aos deuses do presente e do passado arde em moldes de cera derretida, como se saído directamente da forja ancestral de Hephaestus ou do martelo guerreiro do poderoso Thor, fogo é fé transcendente que se sobrepõe ao tempo e ao espaço, que atravessa mundos, que une desconhecidos em torno de uma mesma certeza da qual não têm prova empírica mas que sentem que arde algures.

Impulso criador que não se vê mas que sinto pulsar dentro de mim, chama imaginativa que num impulso cria mundos imensos, tão vastos quanto a minha imaginação ardente o permitir, também em mim arde esse fogo antagónico, símbolo da vida e da morte. A ele retornarei, eu, que dele nasci, num momento de paixão concretizada que nos tempos e na memória se perde. Não o recordo, que o não vivi. Mas sinto-o. Sinto-o quando a tua imagem radiante na minha mente surge, sem aviso nem permissão, uma intrusão que não quero tolerar mas que no fundo desejo... Sinto-o quando te vejo, quando os nossos olhos se cruzam e o Tempo se desvanece na magia do momento... sinto-o quando estás comigo, quando o teu toque suave me arrepia, faz vibrar todo o meu ser, desperta este ardor dentro de mim... sinto-o nos momentos de consumada paixão em que tudo deixa de ter sentido, em que espaço e tempo se volatilizam nas chamas que deste sentimento irrompem numa batida de coração, obliterando à sua passagem todo este mundo fantástico que juntos concebemos... fogo é paixão, amor etéreo e fulgurante materializado em mim, em ti, em nós, suspirando com saudade na distância que nos separa, consumindo-nos furiosamente em desejo ardente quando estamos juntos em que nada mais importa para além deste sentimento, para além deste fogo que dentro de nós arde...

Nada disto é real, talvez. Só o fogo, o eterno fogo que dentro e fora de mim arde, agora e sempre, o mesmo fogo que vejo desvanecer-se lentamente em fumo à medida que o cigarro se apaga, deixando-me envolto em escuridão e sonhos.

(última imagem de Boris Vallejo; as restantes, de autores desconhecidos)

Escrevi este texto no âmbito de um trabalho para a minha cadeira de português... escolhi a palavra fogo. Não pensei em ninguém no momento em que o escrevi; agora que o publico, dedico-o a quem primeiro o leu - Susaninha, grande amiga, companheira de longas conversas e de filosofias. Um grande beijo*

February 05, 2005

[Moment's Song 04: "Anywhere", Evanescence]

[Moment's Song 04: "Anywhere", Evanescence]

Contemplamos juntos a imensidão do mar, o seu espelho de azul translúcido escurecido pela noite, tão límpido que quase reflecte as estrelas na sua superfície. Não conseguimos divisar onde ele termina e onde começa o céu. É como se ambos se tivessem fundido harmoniosamente, como se a própria lua, cheia em todo o seu esplendor pálido, tivesse cedido a sua luminescência às ondas suaves, que parecem brilhar de prata.

Quedamo-nos juntos, na beira do precepício, embalados pelo som das vagas a quebrarem-se nos rochedos ancestrais. Sinto a tua mão apertada na minha, ambas quentes apesar da brisa fria que foge da terra para o mar. Entre nós somente silêncio na noite de cristal. Contemplamos o infinito que ardentemente desejamos, que o céu será o único limite para nós, e para tudo aquilo que simultaneamente nos consome a alma a partir do coração que bate...

"É o fim?", pergunto, sem tirar os olhos da Lua, das fulgurantes estrelas cadentes que de vez em quando cruzam os céus negros, velozes.

"Não. Será o início", responde-me ela, no seu tom quente, invariavelmente terno, sonhador como sempre. "Daqui a pouco nada será nosso... teremos tudo, então. Seremos evanescentes como esta brisa que sopra. Como... como isto que nos une."

Sinto a sua mão apertar a minha com mais força. Desvio o olhar, fito-a nos seus olhos de azul cristalino. Vejo toda a imensidão do céu neles reflectida, toda a dimensão do sonho de viver para sempre, de amar para sempre... desvia o olhar também, fita-me como eu a ela. Pela última vez - ou será que é pela primeira? - sinto o sabor infinitamente doce dos seus lábios, apaixonados como os meus. Subitamente sinto o mundo desvanecer-se, dissolvido pela magia do momento.

"Não vai morrer, pois não?", pergunta-me ela, com uma lágrima tímida a soltar-se dos seus olhos de cristal. "O nosso amor... vai ficar para sempre, não vai?"

Envolvo-a no meu abraço, afastando o frio que a noite impõe. "Vai. Para sempre voará, livre e etéreo, com este vento que nos alvoroça os cabelos... ou nestas ondas, que fluem e refluem eternamente como as ondas... sentiremos por momentos, a liberdade dos ceus, o abraço do oceano... e depois, estaremos noutro lugar qualquer, onde tudo aquilo que verdadeiramente importa são os nossos corações que batem por nós..."

Retiro o meu braço dos seus ombros, volto a dar-lhe a mão. Inspiro profundamente o ar frio e puro da noite. Voltaremos a sentir algo assim, no mundo que nos aguarda?

"Amo-te", sussurra ela, ao vento que sopra para o mar.

"Amo-te...", respondo, no mesmo sussurro atirado ao vento.

Apertamos as nossas mãos com força, inspiramos o ar deste mundo pela última vez e saltamos juntos para o vazio... para o nada que se tornara em tudo... para o infinito evanescente, tão evanescente e etéreo como o nosso amor...

Dear my love, haven't you wanted to be with me?
And dear my love, haven't you longed to be free?
I can't keep pretending that I don't even know you.
And at sweet night, you are my own...
Take my hand,

We're leaving here tonight...
There's no need to tell anyone,
They'd only hold us down
So by the morning light
We'll be half way to anywhere,
Where love is more than just your name...

I have dreamt of a place for you and I,
No one knows who we are there...
All I want is to give my life only to you...
I've dreamt so long I cannot dream anymore...
Let's run away, I'll take you there...

We're leaving here tonight...
There's no need to tell anyone,
They'd only hold us down...
So by the morning light,
We'll be half way to anywhere,
Where no one needs a reason...

Forget this life,
Come with me,
Don't look back, you're safe now...
Unlock your heart,
Drop your guard,
No one's left to stop you...

Forget this life,
Come with me,
Don't look back, you're safe now...
Unlock your heart,
Drop your guard,
No one's left to stop you now...

We're leaving here tonight...
There's no need to tell anyone,
They'd only hold us down...
So by the morning light,
We'll be half way to anywhere,
Where love is more than just your name...


("Eurydice", imagem de Boris Vallejo - e já agora... um agradecimento: à Waxing Crescent, que me deu a conhecer a melhor música desta banda. Obrigado!*)